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Contra o messianismo e o oportunismo!

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Pela independência do proletariado!


O primeiro, primordial e absolutamente inegociável princípio que deve nortear a ação daqueles que se propõem a marchar ao lado do proletariado é o da busca e preservação da consciência e organização independentes dos trabalhadores. Em quaisquer circunstâncias, em qualquer conjuntura, em todos os tempos e lugares. Abrir mão deste princípio, sob qualquer propósito ou pretexto, equivale a contribuir para a manutenção do capitalismo, para derrotas presentes e futuras dos trabalhadores. Assim ensina a história. Assim tem sido e assim será.

Quer se trate de uma conjuntura revolucionária, quer se trate de um quadro de desunião, medo ou recuo deste proletariado, este princípio sequer poderá ser arranhado. Sob pena de a esquerda que vier a violá-lo perder o direito de se declarar efetivamente no campo da esquerda revolucionária, ou seja, no terreno daqueles que lutam para varrer o capitalismo da face da terra, instalando uma sociedade socialista que, sob o comando do proletariado, conduzirá a humanidade ao reino da liberdade.


A reativação dos amplos movimentos contestatórios de massa que tomaram ruas e praças brasileiras nos últimos trinta dias configura o ponto de partida de um ciclo conjuntural que, a se julgar por suas causas estruturais e determinantes mais próximos, certamente se prolongará por prazo bastante longo, a depender das incidências diretas das lutas de classe concretas em sua dinâmica.


Conjuntura

De fato, o neoliberalismo – estratégia mundial que a burguesia adotou como remendo à crise cíclica do sistema que estourou em meados da década de 70 do século passado – demonstrou haver esgotado suas possibilidades ‘terapêuticas’ com a crise financeira de 2008. Ou seja, o remédio do aprofundamento da exploração direta e indireta sobre o proletariado mundial – Brasil evidentemente incluído – já não faz mais o efeito de garantir a reprodução ampliada do capital, ou seja, de garantir os lucros sempre crescentes que mantêm o capitalismo de pé.


Mas que fique mais uma vez absolutamente claro que o capitalismo não ingressou em nenhuma fase histórica de decadência irreversível, de “agonia final”, como pretendem fazer crer correntes de pensamento mecanicistas, antagonicamente estranhas ao marxismo, mesmo que tentem se passar por marxistas.


Não, o marxismo nada tem a ver com este catastrofismo que, concretamente, só tem servido de base para um voluntarismo e um oportunismo que apenas aparentemente se contrapõem, pois na verdade constituem faces da mesma moeda de considerar a dinâmica histórica do sistema capitalista a partir de uma ótica pequeno-burguesa. Para o marxismo, para Marx, se o capitalismo não for derrubado pelo proletariado no interior das crises cíclicas, o sistema encontrará formas – como no caso das duas guerras mundiais, em que o caminho escolhido foi a da destruição das forças produtivas, e na adoção da estratégia neoliberal – de reativação de reprodução do capital. A história do crescimento do capitalismo no pós II Guerra demonstrou inequivocamente a quem não se apega ao misticismo político que, ao contrário do que supôs o pensamento trotsquista, o capitalismo não tinha acabado.

E não acabará enquanto não for destruído pelo proletariado. E aqui entra a questão central a ser pensada neste ciclo de retomada de lutas de classes abertas no país.

Em primeiro lugar e antes de mais nada, a esquerda revolucionária tem que ter claro que não estamos diante de uma situação revolucionária, e muito menos de uma crise revolucionária. A crise de governabilidade por que passa o governo Dilma não configura uma perda da capacidade de governar da própria burguesia. Não significa um esgotamento conjuntural dos meios de dominação política burgueses, os quais, como sabemos, constituem uma soma de poder político-militar e poder ideológico.


Os militares (polícias estaduais incluídas) por acaso deixaram de atender aos interesses imediatos e futuros da burguesia? Existe algum sinal, um sinal pelo menos, de cisão horizontal, ou mesmo vertical, das forças armadas brasileiras? A fome aguda, e não somente a estrutural de sentido geral, teria chegado de forma absoluta a todos os lares proletários brasileiros? E, mais importante, os de baixo não querem mais e os de cima não podem mais viver à maneira antiga? Estas são as exigências-perguntas formuladas por Lênin, às quais respostas afirmativas, a partir de uma análise concreta da situação concreta, configurariam uma situação/crise revolucionária. E uma análise concreta da situação concreta atual do Brasil, mesmo com o advento deste novo ciclo de mobilizações de massa, aponta claramente para o não como resposta àquelas exigências formuladas por Lênin.


Mas o delírio voluntarista da crendice de que estaríamos vivendo, desde 1938, um tempo de “agonia final” do imperialismo que implicaria a possibilidade “permanente” de a esquerda operar revoluções remete os segmentos hegemônicos, trosquistas, da esquerda brasileira a colocarem em prática todo o hegemonismo e o imediatismo que tipificam historicamente suas políticas, o que, independente mesmo de suas ingênuas vontades, os remetem para o lodaçal do oportunismo.


Afinal, acreditam religiosamente, a revolução neste momento passa a depender exclusivamente da esperteza e da astúcia da “vanguarda” (ou seja, deles). Ou seja: a consciência revolucionária do proletariado, e os caminhos táticos para concretizá-la, não precisam ser levados em conta. A ‘vanguarda’ dá conta disso a partir da sua criatividade. Afinal, sustentam, a insurreição é uma arte, numa alusão a uma frase de Lênin sutilmente retirada de seu contexto de formulação, ou seja, do contexto de uma crise revolucionária. E é a partir deste incrível festival de grosseiros erros teóricos e políticos que as iniciativas, posicionamentos e ações deste segmento voluntarista-hegemonista-messiânico majoritário na esquerda brasileira hoje contribui decisivamente para jogar na lata do lixo a atual oportunidade histórica de se construírem as bases de uma organização e consciência independentes do proletariado brasileiro.


Os fatos

Todas estas críticas de natureza teórico-metodológicas e políticas que nós do MM5 temos feito desde nossas origens ao trotsquismo e a seus aliados mais ou menos abertos, mais ou menos conscientes, foram e tem sido fartamente comprovadas no início deste ciclo de lutas de classes abertas no país. Críticas que temos feito e fazemos exatamente na linha daquele princípio fundamental e básico de que a consciência de classe do proletariado é ponto de partida e de chegada da luta do proletariado. Vejamos.


Já na segunda reunião Plenária Classista, defendemos vivamente a necessidade de não nos alinharmos às centrais sindicais (CUT, CGT, CGTB, UGT, Força Sindical etc.) e partidos burgueses em nenhum espaço ou campo de luta. Isto, em vista de o principal dirigente da CSP-Conlutas (central sindical de esquerda) haver se prestado ao vexame de comparecer perante a presidente Dilma Rousseff para fazer reivindicações ao lado daquelas forças abertamente pelegas e governistas. Nossa análise, que aqui mantemos, é a de que estas centrais ou são governistas, ou fazem críticas ainda mais à direita ao governo petista-pecedobista. A Plenária é um fórum composto por partidos e grupos de esquerda e entidades sindicais dos trabalhadores. Ficamos em minoria, embora sensibilizando uns poucos independentes quanto ao risco de nos submetermos aos intentos burgueses naquela estranha engenhosa aliança em que se metia a Conlutas.


Na reunião seguinte da Plenária, também no Rio de Janeiro, discutiu-se o que fazer e como fazer na jornada de manifestações e paralisações marcada para o dia 11/07. Nada como a luta viva de classes, na rua, para desnudar posturas e intenções. Já de início, nos posicionamos claramente contra manifestações unificadas com as centrais pelegas e patronais e levamos a proposta à votação. Representantes da Conlutas, do PSTU e do partido reformista PSOL se insurgiram duramente contra a mesma e, em retumbante retórica bacharelesca, denunciaram um hipotético conteúdo isolacionista no nosso posicionamento argumentando que era preciso ficar junto das centrais pelegas para, assim, ganhar os trabalhadores que se encontravam em sua base.


Na prática, o velho entrismo partidário transmutado em entrismo sindical. Esperteza e astúcia como política. Isso nunca deu certo, nem nunca dará. O resultado prático deste aliancismo sempre será a cooptação política (não necessariamente orgânica) dos astutos e espertos por parte da direita que, no mínimo, fará prevalecer seu princípio da conciliação de classes. Não é preciso ir longe. A própria história recente do Brasil o comprova à exaustão. Os dois últimos momentos de mobilização nacional de massas evidenciaram uma escandalosa e oportunista adesão da esquerda à agenda burguesa: a redemocratização/constituinte e o Fora Collor. Pergunta-se: o que ganhou o proletariado em organização própria e consciência nestas mobilizações? Resposta: nada. E por qual razão? Principalmente por culpa da esquerda, que abriu mão da luta pela independência organizatória e ideológica do proletariado para fazer parte da festa burguesa da redemocratização.


E agora se caminha por esta mesma tortuosa estrada. Outro argumento que tem sido alardeado pelos aliancistas é o de que aquelas centrais pelegas e governistas detêm milhões de trabalhadores associados a seus sindicatos. Ora, a mão-de-obra ativa do país conta seguramente com mais de 60.000.000 de trabalhadores. Aqueles cerca de dois milhões– contabilizam – somente deixarão a liderança da Força Sindical, CGT, CUT etc. no corpo de uma dinâmica do movimento em que uma central verdadeiramente proletária (o que a Conlutas poderia ser, mas insiste em não querer ser) crescer a partir de iniciativas próprias contra as diretorias e centrais pelegas – e não ao lado delas. Esta é uma verdade elementar, mas inacessível aos olhos e ouvidos de messiânicos e hegemonistas.


Resultado desta segunda reunião da Plenária: perdemos a proposta de uma passeata própria. Mais que isso, aprovou-se a absurda proposta de que a consigna “Fora Cabral” se constituísse na bandeira política unificadora da manifestação marcada para o dia 11 no Rio. Isso após um informe de um dos representantes do gabinete do deputado Marcelo Freixo (PSOL), segundo o qual este deputado havia ingressado na Mesa da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com um pedido de impeachment do governador Sérgio Cabral. Traduzindo: mais uma manobra para levar para o terreno institucional burguês a luta do proletariado.


Ressalte-se que todos havíamos decidido tomar as paralisações e manifestações do dia 11/7 como marco de ingresso do proletariado no cenário do novo ciclo das lutas de classe no país, até agora de maioria pequeno-burguesa. Esta consciência agrava a decisão de se fazer o jogo de interesses eleitorais. Propusemos a palavra-de-ordem “Fora Dilma”, que foi rechaçada pelos astutos aliancistas. Nesta mesma reunião, é preciso registrar, foi aprovado, com modificações apenas de forma, um panfleto de cuja redação havíamos participado e que seria distribuído nas manifestações. A mesa ficou encarregada de providenciar a impressão e encaminhar o envio às entidades sindicais. O panfleto não apareceu nas manifestações, com exceção de seu encaminhamento e distribuição pela Oposição Sindical dos Jornalistas de Minas.


O triste fim
A consequência de todo este rosário que erros, equívocos e oportunismos da esquerda não poderia ser outro: um 11 de julho muitíssimo aquém do que poderia ser do ponto de vista de conscientização e organização independentes do proletariado. No Rio, após primeira agressão da polícia a um manifestante da esquerda, o carro de som de uma das centrais sindicais se apressou a fazer tocar o Hino Nacional. Ora, sabe-se muito bem que os símbolos nacionais sempre se prestaram e se prestam a estratégias e políticas de dominação fundadas na linha da conciliação de classe ou, em casos mais agudos, de ofensivas fascistas contra o proletariado. De seu lado, os carros de som dos pelegos vociferavam contra o que chamavam de “baderneiros”, chamando à ordem e ao “protesto pacífico”. Sons e palavras que se misturavam.


Não nos alinhamos aqui àqueles que criticam as manifestações e paralisações pela quantidade menor de manifestantes e grevistas em relação às mobilizações anteriores. Mas é preciso lembrar que colocar 10 mil pessoas na rua, número verificado no Rio, decididamente não constituiria tarefa impossível em um ato da esquerda, sem a nauseante companhia de governistas e pelegos.


Sigamos em frente. É preciso que as forças verdadeiramente marxistas partam decididamente para a construção desta organização independente do proletariado. Para as duras tarefas do trabalho de formação de uma classe operária consciente e revolucionária no país, que não se deixe pautar pela institucionalidade burguesa nem por oportunismos hegemonistas e messiânicos.


Concretamente, a deflagração de uma greve geral, a ser tomada desde agora como tarefa unificadora da ação da esquerda, não pode se confundir com os objetivos mesquinhos e corrompidos das centrais pelegas e governistas, nem com interesses eleitorais e institucionalistas de partidos burgueses ou reformistas. Vamos preparar a greve geral nos locais de trabalho, no seio das lutas vivas dos trabalhadores brasileiros. À luta, pois.


Venceremos!

 


 

 




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