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Bolsonaro e a governabilidade

 

FOTO BOZO

As crises políticas e tensionamentos quase que diários provocados pelo governo Bolsonaro dentro e fora do campo burguês têm levado alguns setores da esquerda brasileira a afirmar, de forma apressada, que estaríamos diante de uma verdadeira ‘crise de Estado’. Uma crise cuja consequência quase que inevitável seria a iminente queda do governo Bolsonaro e a abertura de uma ‘vaga revolucionária’ de grandes mobilizações.

Típica das concepções trosko-reformistas que ainda se fazem presentes em parte expressiva da esquerda brasileira, essa irrefletida ‘análise’ mostra o quanto essa mesma esquerda, capitaneada sobretudo por PSOL, PSTU e PCB, é incapaz de compreender cada conjuntura em suas especificidades e a partir daí extrair políticas consequentes para o proletariado.

Sem dúvida que até o presente momento — e do ponto de vista da burguesia brasileira e do imperialismo — a atuação do governo Bolsonaro tem sido muito mais um empecilho que uma ‘solução’ para a implementação das reformas demandadas pelo grande capital, começando pela da Previdência (PEC nº 6/2019). Os recentes atritos e trocas de farpas entre Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, por exemplo, paralisaram momentaneamente a tramitação da reforma no Congresso, fato agravado pela prisão de Temer e as ameaças de retaliação por parte do chamado ‘quadrilhão’ do PMDB, grupo de parlamentares com grande influência na aprovação (ou não) de matérias legislativas. A tal quadro somam-se ainda os tensionamentos entre o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF), por conta de decisão que desmembrou inquéritos da operação Lava-Jato, e a queda de 15% na popularidade de Bolsonaro, segundo recente pesquisa Ibope.

Todas essas crises e tensionamentos, no entanto, não nos colocam diante de uma crise de Estado, senão de uma crise de governo cujos desdobramentos vão depender tanto de movimentações de frações de classe no interior do campo burguês quanto de mobilizações das esquerdas em seu conjunto.

É preciso não ter ilusões. Os empecilhos momentâneos causados pelo próprio governo Bolsonaro à reforma da previdência não significam que o governo tenha paralisado todo o calendário de reformas capitalistas. A recente privatização dos aeroportos, por exemplo, mostrou o quanto Bolsonaro está disposto a promover a rapinagem do Estado para beneficiar o grande capital. Em declaração à imprensa, feita este mês, o especulador Paulo Guedes (Ministério da Economia) anunciou a intenção de privatizar a Caixa Econômica Federal, a Petrobras e o BNDES.

Como marxistas que somos, sabemos que a instância política tem relativa autonomia em relação ao econômico e suas determinações, não sendo portanto mecânicas as relações entre infra e superestrutura no interior das formações sociais capitalistas. Mesmo considerando essa realidade, contudo, não é desprezível a possibilidade de a atual crise de governo ser estancada e/ou mitigada pelas pressões do imperialismo e da burguesia brasileira sobre Bolsonaro. Além disso, há que se levar em conta o fato de, no plano ideológico, a dominação burguesa ainda contar com significativas reservas simbólicas e seu inevitável potencial ilusionista sobre a classe trabalhadora. A própria democracia, enquanto ideologia, é uma dessas reservas, presente sobretudo no âmbito das chamadas lutas identitárias que tanto contribuem para ofuscar a luta de classes na consciência do proletariado. Nas crises geradas pela transição da ditadura militar para os governos civis, por exemplo, essa ideologia ‘democrática’ teve papel decisivo para assegurar a continuidade da dominação burguesa.

Continuamos na luta contra as políticas do governo Bolsonaro, como faríamos em relação a qualquer outro governo burguês, mas sem ilusões de que o governo ‘vai cair de podre’. Por isso participamos das mobilizações proletárias que, nas frentes sindicais, buscam construir a greve geral contra as reformas capitalistas e os cortes de direitos. Esse é o caminho.

 

Venceremos!

 

 

 

 

 

 


 

 




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