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Bolsonaro e os militares

 

bozo dois

Entre as mais consequentes afirmações de Lênin (1870-1924) que contribuíram de forma decisiva para o avanço da luta revolucionária do proletariado, dentro e fora da Rússia, está a de que "a alma viva, a essência mesma do marxismo, é a análise concreta da situação concreta”. Ou seja: a detida e refletida análise dos elementos que compõem, se combinam e se fazem presentes em cada conjuntura. Análise cujas conclusões serão sempre fundamentais para que o partido revolucionário do proletariado e sua vanguarda definam a política a ser praticada numa determinada conjuntura.

É a partir desta consideração inicial que, diferentemente das organizações reformistas e/ou trotskistas, os marxistas leninistas devemos a todo custo evitar os descaminhos e armadilhas que se nos apresentam quando a observação da realidade é feita de forma apressada ou irrefletida: por um lado, a armadilha da superficialidade e da tendência a superdimensionar os elementos presentes na conjuntura; por outro, a mera subestimação ou desconsideração desses elementos.

Com a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, a maioria esmagadora da esquerda brasileira tem manifestado uma postura sobretudo empirista e superficial ao afirmar que Bolsonaro vai instaurar uma 'ditadura militar' a partir da posse, em 1º de janeiro de 2019. Mas não. A verdade é que Bolsonaro não vai e não pode instalar uma ditadura imediatamente. O que Bolsonaro tentará — e isto é fato, dada a expressiva presença de militares que ocuparão postos-chave em ministérios decisivos — é fazer com que seu governo seja uma espécie de antessala para a ditadura. Uma preparação cuja principal característica será a crescente militarização não sómente do governo, mas da política como um todo. Ao contrário do que em vão tentou fazer crer o comandante-geral do exército, general Eduardo Villas Boas, em recente entrevista, com Bolsonaro não será mais possível separar os militares e as forças armadas da política partidária e das decisões nevrálgicas tomadas no âmago do estado burguês.

Com Bolsonaro teremos certamente um governo mais repressor e que tenderá a perseguir ainda mais a esquerda e os movimentos sociais como um todo, como indicam as recentes declarações de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, defendendo a prisão em massa de militantes do MST e a criminalização dos símbolos do comunismo. Para esta tarefa repressiva, Bolsonaro continuará contando com o apoio da maioria da imprensa brasileira, uma das mais venais, vendidas e reacionárias de todo o planeta. A mesma que durante anos cultivou a histeria antipetista e apoiou abertamente o golpe contra Dilma, em 2016, insuflando a classe média e os movimentos de extrema-direita a ocuparem as ruas pelo impeachment da então presidente. A mesma classe média que, na eleição deste ano, conformou a base social do bolsonarismo.

As intenções repressivas já manifestadas por Bolsonaro e seus acólitos, no entanto, não significam que ele conseguirá efetivamente militarizar toda a política ou mesmo transformar seu governo na antessala para uma futura ditadura. Não. Isto não está dado a priori, ao contrário do que apressadamente pensam reformistas e trotskistas, pois é a própria dinâmica da luta de classes e das modificações conjunturais que vão determinar o desenrolar dessas lutas. Apenas os que têm raciocínio determinista e antidialético consideram que a luta está decidida de antemão. Para nós, marxistas-leninistas, a luta contra Bolsonaro está apenas começando.

Nesse sentido, é preciso apontar alguns elementos que mostram a complexidade da atual conjuntura. Um deles é a já comprovada capacidade que Bolsonaro vem demonstrando de criar crises quase que diárias no interior do campo burguês. Crises com potencial de abalar a necessária sustentação burguesa ao seu próprio governo. Um exemplo foi a recente declaração de que 'transferirá a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém', alinhando-se com o estado terrorista de Israel. A mera declaração já foi suficiente para criar um contencioso político de grandes proporções junto aos países árabes, que anualmente importam 15 bilhões de dólares do agronegócio brasileiro e ameaçam retaliar comercialmente os empresários nacionais, base de apoio do próprio Bolsonaro, caso o presidente eleito não volte atrás.

Este e outros elementos, contudo, não devem servir de alento ou justificativa para que, apostando na crise de relacionamento entre Bolsonaro e frações do campo burguês, o conjunto da esquerda brasileira se acomode ou não se prepare para as necessárias lutas que certamente virão. Afinal, nunca é demais lembrar que o ministro da Fazenda do governo Bolsonaro, o banqueiro e especulador Paulo Guedes, já anunciou a intenção de aprovar a reforma da previdência, privatizar estatais, destruir os serviços públicos e aprofundar a reforma trabalhista com o intuito de cortar ainda mais direitos dos trabalhadores.

Nós, do Movimento Marxista 5 de Maio (MM5), estaremos na frente sindical em aliança com todas as forças que verdadeiramente queiram organizar a luta contra as políticas de Bolsonaro e seus ataques ao proletariado. No campo político, porém, achamos que a luta contra Bolsonaro deve ser travada na perspectiva do socialismo, e não da reificação da democracia e suas ilusões burguesas.

Venceremos!

 

 

 

 


 

 




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