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Votamos nulo porque a eleição é burguesa: nem Bolsonaro nem Haddad

 

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Se a provável eleição de Bolsonaro realmente se confirmar neste mês de outubro, o que ainda não está dado, é preciso dizer que ela não terá começado agora. Na verdade, as condições para isto já estavam dadas desde a saída do Brasil da ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. Uma saída que optou pelo caminho institucional, reificando a democracia representativa e abrindo mão de qualquer veleidade, mínima que fosse, de transformação revolucionária. O Brasil, mesmo comparado a outros países da América Latina que também passaram por governos ditatoriais, não fez justiça contra os crimes que o Estado brasileiro cometeu.

O resultado foi que o Estado brasileiro, ao não promover um necessário ajuste de contas para punir os crimes da ditadura de direita instaurada após a derrubada de João Goulart, permitiu que uma ideologia reacionária, conservadora e com características protofascistas continuasse se reproduzindo dentro de quartéis, colégios militares e meios de comunicação.

O Brasil tem uma História diferente dos demais países da América Latina. Aqui, através da força e da violência estatal, manteve-se a coesão da União federal. Foram mais de três séculos de escravidão, sendo aqui o último país da América Latina a libertar seus escravos. A formação social brasileira foi cunhada assim. Aqueles que se rebelaram tiveram sua cabeça cortada e exposta em praça pública para que servisse de ‘exemplo’ aos outros escravos. 

As recentes igrejas neopentecostais financistas lotam-se de servos acatando as ordens de seus senhores do púlpito. Pastores se aproveitam não só do dinheiro e da miséria de homens e mulheres, a maioria de origem proletária, mas também do voto. Valem-se do sofrimento de pessoas que buscam as igrejas como alento ao seu sofrimento. Essas igrejas orientam seus fieis a votarem no ‘Messias’, o “ungido de Cristo”.

De outro lado temos uma ampla assim chamada classe média. Após as desestatizações iniciadas com Sarney e Collor, aprofundadas violentamente pelos governos de FHC e timidamente arrefecidas pelos governos petistas, a classe média brasileira, que já fora formada por funcionários públicos, se metamorfoseia em pequenos empresários, também chamados de ‘empreendedores’. E como tal já não são proletários, mas pequeno-burgueses. Individualismo, violência ideológica e física, hedonismo, profundo analfabetismo político são apenas algumas das características desta parcela da sociedade brasileira. Os mesmos que lotaram as ruas ladrando contra qualquer pessoa ou objeto que remetesse (mesmo remotamente) à esquerda. Lotaram as urnas de votos ao seu ‘Mestre Mor’, crendo que ele garantirá melhores rendimentos aos seus negócios.

E onde a esquerda falhou? Ao abrir mão da revolução. Ao escolher a democracia, o parlamento, as salas refrigeradas das universidades. Lá discutem sobre as obras de Marx, Engels, Lenin, mas não aplicam na prática o que esses grandes revolucionários escreveram e fizeram ao longo de suas vidas. A esquerda brasileira, ao invés de se voltar para a classe trabalhadora como um todo, preferiu a academia, a saída parlamentar, as discussões, os intermináveis seminários, simpósios e viagens. Esquerda que ainda tem a desfaçatez de culpar a nós, comunistas, pela onda de extrema-direita que assola o país e que vem catapultando o candidato protofascista. Mas, ao contrário da esquerda reformista, nós sempre estivemos do lado da revolução. Não da democracia.

A História não tem piedade. As forças de extrema-direita sempre se aproveitaram da miséria vivida pelos trabalhadores para atingirem seus objetivos inconfessáveis. Assim como fizeram em 2013 ao aproveitarem-se das reivindicações legítimas de uma legião de insatisfeitos, quando então foi eleito o congresso mais reacionário desde a ditadura militar.

Já a esquerda optou pelo caminho fácil ao apostar em lutas imediatas e parciais. Lutas que, além de fragmentarem a classe trabalhadora, tornam o caminho revolucionário ainda mais distante. Essa esquerda não anseia a utopia, a sociedade futura qualitativamente melhor que a atual, a sociedade comunista de que falou Marx. É uma esquerda pequeno-burguesa e, como tal, só quer a melhoria de sua condição de vida no interior do capitalismo, numa espécie de ‘utopia’ reacionária e regressiva que acredita na possibilidade de burgueses e proletários viverem em harmonia. Tal ideologia (é bom lembrar) está na base da ideia de ‘governar para todos’ (burgueses e trabalhadores).

Na saída da ditadura a esquerda abriu mão da revolução em favor da democracia, mas essa renúncia ocorrida há mais de 30 anos agora cobra seu preço.

É preciso saber que a burguesia não tem interesse na qualidade de vida de quem quer que seja. O seu interesse é a manutenção do crescimento de seus lucros e dividendos. Este é seu verdadeiro interesse. E ela lançará mão de qualquer um — seja Bolsonaro ou qualquer outro —, desde que seus interesses sejam efetivamente priorizados, não importando se determinado candidato tem (ou não) uma ideologia protofascista.

Lembremos que os partidos de direita, mesmo os mais raivosos, nada mais representam que serviçais dos verdadeiros donos do poder estatal, os capitalistas. E serão descartados quando não mais servirem, assim como se viu na derrota do PSDB e no encolhimento das bancadas de DEM e MDB.

É necessário lembrar que a eleição de Bolsonaro, caso se confirme, não significará a instalação do fascismo no Brasil. O fascismo, conforme a História nos diz, só sobe ao poder caso haja uma ameaça real da tomada do Estado pela esquerda revolucionária, com o risco de uma revolução proletária. E no Brasil de hoje não existe tal ameaça. A esquerda brasileira não tem pretensões muito além dos cargos parlamentares, está absolutamente ausente dos sindicatos e das reivindicações revolucionárias do proletariado. Não tem qualquer objetivo revolucionário. Apenas quer dividir o poder com a burguesia. Portanto, na atual conjuntura os capitalistas não têm nenhuma necessidade do fascismo.

Evidentemente que uma eventual eleição de Bolsonaro levará o trabalhador brasileiro a uma condição de vida ainda pior. Bolsonaro e toda a sua potencial equipe não deixam dúvidas quanto ao seu projeto liberal privatizante, de redução ainda maior do papel do estado no provimento de condições mínimas da população, como saúde e educação públicas. Ele está comprometido com um ainda maior relaxamento quanto ao controle da violência assassina das forças repressivas do Estado, o que vai significar ataques ainda mais intensos às manifestações de trabalhadores. Mas isso não representa uma sociedade fascista. Bolsonaro e o congresso de extrema-direita já eleito chegaram ao poder ‘democraticamente’, através do voto. Além do mais, a democracia, como forma de dominação burguesa, nunca excluiu o uso de brutal repressão contra manifestações proletárias.

E que caminho a esquerda trilhará daqui para frente? A esquerda se manterá limitada aos seus congressos internacionais, debates inócuos, ações de rua cujas reivindicações limitam-se a algumas frações do proletariado ou mesmo à pequena burguesia?

Os comunistas não temos dúvidas quanto ao nosso papel. Não escolhemos entre democracia ou fascismo porque nossa opção é a revolução. Nossa tática está e sempre estará concretamente ligada a nossa estratégia maior: a sociedade comunista!

Venceremos!

 


 

 




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