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Na reta final da eleição, burguesia insufla candidatura Ciro

 

CIRO GOMES

Ao contrário das anteriores, na eleição presidencial de 2018 a burguesia está encontrando enormes dificuldades para constituir uma verdadeira ‘candidatura de consenso’. Uma candidatura com efetiva capacidade de coesionar suas várias frações de classe, como bancos, agronegócio, mineração, setor exportador, indústria, serviços etc.

Já muito antes do pleito, essa dificuldade foi expressa pelas sucessivas idas e vindas em torno de candidaturas que o campo burguês considerava ‘viáveis’, como as de Joaquim Barbosa e do apresentador Luciano Huck, que logo desistiram da disputa. Com o desaparecimento de tais ‘apostas’ e a impopularidade de candidaturas já desgastadas como as de Alckmin (PSDB), Marina (Rede), Álvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (PMDB), o campo político ficou aberto para o crescimento de Jair Bolsonaro (PSL).

Embora apresente um programa de governo ultraliberal e se proponha a realizar os ajustes de que a burguesia e o imperialismo tanto necessitam fazer no Brasil — como mais privatizações, mais rapinagens e ainda mais ataques aos direitos do proletariado —, o fato é que Bolsonaro nunca foi o ‘candidato ideal’ no sentido de efetivamente gerar consenso entre as variadas frações burguesas. Não que a brutalidade, a estupidez ou a boçalidade que tanto caracterizam Bolsonaro e seu vice (general Mourão) sejam coisas que choquem ou causem horror aos setores burgueses. Nada disso. Afinal, como já demonstrado por inúmeros exemplos históricos no Brasil e no mundo, a burguesia nunca hesitará em lançar mão da mais brutal repressão contra o proletariado, incluindo torturas e assassinatos em massa, se assim achar necessário à continuidade de sua dominação. O fato de Bolsonaro e Mourão serem figuras absolutamente repugnantes e desprovidas de qualquer senso de humanidade não é, portanto, a razão fundamental que leva parte expressiva das frações burguesas a lhes terem objeções.

Bolsonaro não é o candidato ideal da burguesia porque, para a burguesia manter sua dominação, ainda não se faz necessário (pelo menos por enquanto) um governo abertamente ditatorial, na medida em que na atual conjuntura não temos choques abertos de classes e, menos ainda, mobilizações proletárias com efetiva capacidade de abalar a correlação de forças e ameaçar o cerne da dominação burguesa. Sem contar o fato de que, na formação social brasileira atual, a dominação ideológica burguesa se faz sem grandes abalos. A crença na institucionalidade e na ‘democracia’, por exemplo, é o que infelizmente tem pautado todas as eleições burguesas realizadas no Brasil. E para a burguesia tudo continuará bem enquanto o proletariado não se mobilizar para além de seus interesses econômicos imediatos e continuar acreditando que por meio do voto ele realmente decide alguma coisa no país.

Mas Bolsonaro também não é o candidato ideal da burguesia por outra razão: ele tem reduzida capacidade de interlocução com as diferentes frações burguesas, no sentido de unificá-las para que, juntas, possam atacar ainda mais profundamente os direitos do proletariado.

É a partir dessas considerações que devemos compreender as mais recentes movimentações promovidas pelo campo burguês, que se intensificaram nas últimas semanas a partir do momento em que este campo sentiu-se ameaçado pela subida de Fernando Haddad (PT) nas pesquisas de intenção de voto e pela possibilidade de vitória do candidato petista no segundo turno.

A todo momento, em praticamente todos os jornais, rádios, portais e TVs burgueses, o candidato do PT vem sendo virulentamente atacado, objeto das mais toscas e rasteiras manipulações. O mais recente desses ataques foi a liberação da delação premiada do ex-ministro Antônio Palocci a toda a imprensa, feita por Sergio Moro a menos de uma semana do primeiro turno.

Claro que, se não tiver alternativa, a burguesia se coesionará eleitoralmente em torno de Bolsonaro, num eventual segundo turno contra Haddad. Mas por ora a burguesia ainda tenta um ‘balão de ensaio’ na esperança de abrir outra possibilidade nesta eleição. E esta ‘possibilidade’, que ainda não vingou, é insuflar a candidatura Ciro Gomes (PDT). É isso o que explica uma edição da revista ‘Época’, com capa dedicada a promover Ciro Gomes, no dia 20/9. É isso o que explica reportagem de 20 minutos do Jornal Nacional de 29/9, com grande destaque às manifestações contra Bolsonaro ocorridas naquele dia em todo o país. É isso que explica reportagem da revista Veja, com denúncias criminais contra Bolsonaro feitas por sua ex-mulher. E é isso o que também explica os termos de editorial da Folha de São Paulo (30/9) com críticas a Bolsonaro por este ter levantado suspeitas sobre as urnas eletrônicas e ter dito que não aceitaria o resultado da eleição em caso de derrota.

O fato é que, com ou sem Bolsonaro, a burguesia precisa desesperadamente destruir a candidatura Haddad, como segue fazendo em suas mídias. Mesmo se estruturando a partir de um programa social-democrata já bastante recuado, um eventual governo Haddad não teria, ainda que quisesse, capacidade de promover o ajuste tão desejado pela burguesia e o imperialismo, na medida em que isto se chocaria diretamente com as bases sociais do próprio PT. Que fique claro: a burguesia e o imperialismo precisam aumentar ainda mais a exploração sobre a classe trabalhadora e abrir mercados ao capital privado em todos os setores do estado, como forma de deter as quedas em suas taxas de lucro e criar as condições objetivas para um novo ciclo de acumulação capitalista no país. É disso que se trata.

Para nós, do Movimento Marxista 5 de Maio (MM5), a crise no interior do campo burguês e a possibilidade de um governo Haddad não mudam o fato de que a eleição é (e continua sendo) burguesa. Ou seja: uma eleição na qual os interesses do proletariado não estão em jogo e não são sequer cogitados. Uma eleição que cumpre a função ideológica de legitimar a democracia e as instituições burguesas como um todo.

Portanto, reafirmamos nossa posição de voto nulo no primeiro e segundo turnos desta eleição, para todos os cargos em disputa. Ao proletariado consciente cabe denunciar a farsa da eleição e da democracia como formas de dominação a serviço do capital. Como ilusões burguesas que são.

Venceremos!

 


 

 




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