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Mariana: Morte, destruição, lucro

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A lei básica do capitalismo é a busca do lucro. Desconsiderada esta premissa é impossível compreender o que ocorreu no povoado de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana, em Minas Gerais. Impossibilidade que se desdobra na incapacidade de organizar uma luta concreta contra o que de fato provocou as mortes de moradores locais e uma onda de destruição pelo caminho percorrido pela lama da mineradora Samarco. É fundamental que as mortes provocadas pela ganância da burguesia não sejam tratadas como um acidente de percurso, um ponto fora da curva. Só uma análise que insere o crime ocorrido em Mariana dentro de uma avaliação mais densa sobre a história do capital pode levar ao caminho de luta contra os autores deste crime.

Em 2014 a Samarco teve um rendimento de R$ 7,5 bilhões, gerando um lucro de R$ 2,8 bilhões para os acionistas da Vale e da BHP Billiton, empresas do setor da mineração que por meio de uma joint venture são proprietárias da mina que despejou seus rejeitos sobre trabalhadores e moradores do vilarejo. Este lucro foi obtido pela soma de diversos fatores, desde a redução dos salários dos trabalhadores até a redução de custos na manutenção e implementação de estruturas de segurança. A contabilidade destes elementos é uma engenharia complexa, que analisa até mesmo o risco de um "desastre" e seu impacto nas finanças. Como se pode perceber, a multa de R$ 250 milhões anunciada pelo governo federal se trata de um verdadeiro aceno para que outros "desastres" semelhantes possam se repetir sem causar maiores preocupações contábeis para as empresas. Lembrando ainda que entre o anúncio de uma multa, mesmo ridícula como esta, e sua aplicação existe um longo caminho em que experientes e bem remunerados técnicos irão buscar a melhor forma de se apropriar do ocorrido para capitalizar e gerar novos empreendimentos.

Se a irrelevância do valor da multa é um fato, faz-se necessário compreender a estrutura que o constrói. Com a crise do petróleo da década de 70 e a redução das margens de lucro consequentes coube ao capital buscar uma nova forma de estruturação em que fosse possível a abertura de novos mercados, a redução de custos de financiamento do estado e a redução do valor da mão de obra. Apoiada na modernização das telecomunicações, no salto de capacidade de transporte em geral e em especial o marítimo e no desenvolvimento das cadeias produtivas, a burguesia se recorre a estratégias neoliberais. As premissas deste novo modelo são a redução do estado, deixando caminho aberto nos empreendimentos que antes não despertavam os interesses do empresariado e reduzindo os valores dos impostos; o fluxo de fábricas para locais onde a mão de obra é mais barata; a desregulamentação das relações trabalhistas; e o desenvolvimento de uma ideologia individualista voltada para o consumo e centrada no empreendedorismo.

Estes elementos se fazem presentes no crime ocorrido em Mariana. Com um estado cada vez mais fragilizado e desestruturado, a fiscalização dos empreendimentos se torna rara, quando não impossível. Não estamos aqui afirmando que o estado capitalista pode se organizar de forma a contrariar os interesses da burguesia, pelo contrário, o que deixamos claro aqui é que no capitalismo o estado age para garantir a reprodução da sociedade capitalista. Papel que exige ao estado gerenciar os interesses da burguesia, às vezes os controlando, contra o proletariado para garantir seu pleno funcionamento. O que evidenciamos é como este movimento se faz de forma complementar em diversas frentes.

Essa fiscalização poderia garantir maior segurança nas barragens da Samarco, mas geraria custos para a empresa. Não foi por acaso que nas últimas três eleições a Vale investiu oficialmente mais de R$ 130 mil no financiamento de candidatos, sendo que este é apenas o valor declarado junto ao TSE, quando na verdade é de conhecimento público que estes valores são sempre muito maiores. Com o financiamento de candidatos é possível arrancar qualquer entrave ao lucro, desconsiderar elementos básicos da segurança e destruir a natureza onde melhor convier. O papel canalha a que se prestou o governador mineiro Fernando Pimentel ao usar uma sede da Samarco para realizar seu pronunciamento é prova concreta desta relação podre.

A desregulamentação das relações de trabalho, aliada ao reformismo mais tacanho e covarde, busca bloquear as manifestações de trabalhadores contra os interesses empresariais. Sindicatos voltados para interesses alheios aos da classe trabalhadora substituíram a mobilização de greves contra a falta de segurança no trabalho por cursos de empreendedorismo e aulas de servilismo. Não é por acaso que espertalhões ainda podem sair impunemente pelas ruas de Mariana ou pelos escombros de Bento Rodrigues com camisas e faixas que pregam a defesa da empresa assassina.

A ampliação da capacidade de comunicação obtida pelo capitalismo permite que grupos internacionais realizem expansões de suas empreitadas por todo o globo, não mais centralizados em uma única área de atuação, mas distribuídos em diversos fundos e participações, garantindo sempre que a maior parte do que é produzido para a grande burguesia.

As mobilizações de apoio e ajuda às vitimas da ganância da burguesia é salutar e mostra que neoliberalismo não foi capaz de erradicar a solidariedade e a compaixão.

Mas sem uma reflexão e uma luta classista contra o capital apenas estaremos criando uma barreira frágil contra as investidas da burguesia contra o proletariado. A história do capitalismo é pavimentada de sangue e sofrimento. Não podemos deixar que ela se perpetue. Cabe à nós comunistas organizar uma resistência concreta contra a burguesia e sua insaciável sede de lucro.

Abaixo a exploração capitalista!
Venceremos!


 

 




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