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A extrema direita e o limite de seus delírios

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A tese marxista de que as ideias dominantes são as ideias das classes dominantes em todo e qualquer sistema e formação social constitui uma das mais rígidas leis do funcionamento e reprodutibilidade das sociedades de classes.


É a partir deste parâmetro que poderemos analisar causas e consequências da grande manifestação de massa organizada pela extrema direita no último 15 de março, que reuniu cerca de dois milhões de pessoas em todo o país contra o governo petista, com a predominância da palavra de ordem do impeachment da presidente Dilma, não faltando significativas alusões à necessidade de uma ‘intervenção militar’. A não ser nas conjunturas das crises agudas do capitalismo, por sua vez no interior das crises cíclicas do sistema, conjunturas estas em que emerge a possibilidade de a classe trabalhadora adquirir, no fogo das lutas, a consciência de que é uma classe diferente e oposta à classe dos burgueses e pequenos burgueses, e mesmo colocar para si a tomada do poder político e a implantação de um estado próprio, a não ser naquelas conjunturas, a história não concede à classe trabalhadora a possibilidade objetiva de que as ideias socialistas se tornem dominantes, sequer no interior mesmo do próprio proletariado. Mais, se no quadro desta crise aguda o proletariado não tomar o poder à burguesia, o que se segue inexoravelmente é a recuperação da dominação ideológica da burguesia.

Os atores
Quem são, de onde vieram e o que podem fazer os dois milhões de homens, mulheres e crianças que tomaram as ruas das cidades brasileiras domingo passado?

Politicamente, pode-se dizer que constituem a linha de frente dos cerca de 50 milhões de votos que a candidatura de extrema direita de Aécio Neves (PSDB) obteve nas eleições do ano passado. Como observou o MM5 em artigo anterior neste site, Aécio, ao neutralizar a candidatura Marina Silva através de um discurso mais agressivo e raivoso, catalisou todo o desespero e frustração da extrema direita diante da hipótese de mais quatro anos de poder da direita populista estruturada na aliança PT-PCdoB-PMDB. Ao passar ao segundo turno, a candidatura peessedebista passa também a contar com o apoio indisfarçado, aberto e agressivo da quase totalidade da grande mídia nacional – e internacional –, que não vacilou em utilizar todo seu arsenal de mentiras, calúnias, difamações e insinuações as mais ácidas contra a candidatura da direita. Briga de cachorros grandes. É neste sentido que as marchas de domingo podem ser vistas como extensão da última eleição presidencial.

O mais previsível é que o vigor e a intensidade das manifestações de massa da extrema direita tendam a se esvaziar com o tempo, principalmente com a aproximação das eleições municipais do ano que vem. Na realidade, no longo prazo a disposição dos burgueses grandes e pequenos de irem às ruas e, mesmo de partir para um embate de classe direto, é algo inexistente, com seus entusiasmos políticos escorrendo ou para um golpe de estado ou para o leito da institucionalidade. É por aí que se explica o peso decisivo dos poder judiciário e do ministério público na radicalização dos métodos da extrema direita, desde a condução carnavalesca do chamado ‘mensalão’ pelo então ministro do STF Joaquim Barbosa até as primárias manipulações jurídicas perpetradas pelo juiz Sérgio Moro e pelo procurador Rodrigo Janot nas investigações dos crimes de corrupção na Petrobrás. A bandeira da luta contra a corrupção, lembre-se, foi a principal utilizada pela extrema direita na construção do golpe de abril de 1964, seguida pelo anticomunismo. Assim como agora, nas manifestações, em que não poucas vezes se puderam ouvir e ler palavras de ordem, primárias e rasteiras bem ao gosto da extrema direita, contra Cuba e a Venezuela. Estaríamos, pois, às vésperas de um golpe protofascista?

Não, não estamos. O governo petista, sempre espertalhão, busca na hipotética ameaça de um golpe de estado o pretexto para alcançar dois objetivos óbvios: em primeiro lugar, claro, ganhar tempo para recuperar junto à classe média e ao próprio proletariado o necessário prestígio político-eleitoral que o conduziu e o mantém no poder. Em segundo lugar, mas não menos importante, busca nesta falsa ameaça um pretexto para desenvolver e aprofundar práticas contrárias aos direitos e interesses diretos do proletariado, falando da ‘união’, da necessidade da estabilidade política etc. – exatamente para instituir reformas neoliberais (entrega do patrimônio público incluída) de que necessita o capital na perspectiva do aprofundamento mundial da crise capitalista. Por que, então, pode-se e se deve perguntar, o grande capital e a extrema direita querem tomar o poder ao PT já? O fato é que o PT, dadas suas origens e, ainda suas raízes no proletariado, não terá condições – mesmo querendo e trabalhando dia e noite para isso – de aprofundar o modelo neoliberal ao nível de uma Margareth Thatcher, que é o de que o capitalismo já necessita e mais necessitará em futuro próximo. E os sinais desta incapacidade já são claros, dada inclusive a fragilidade de uma base partidária fisiológica que enquanto tal tem-se mostrado nos últimos dias, com a rebeldia dos trânsfugas peemedebistas Renan Calheiros (presidente do Senado) e Eduardo Cunha (Câmara). Assim, mesmo com a declaração de amor dada à alta burguesia financeira com a nomeação de Joaquim Levy, assalariado de confiança do Bradesco, para o Ministério da Fazenda, mesmo assim, as primeiras ‘reformas’ antitrabalhalhistas da presidente Dilma Rousseff não têm conseguido passar incólumes pelo Congresso Nacional. Os altos estrategistas da burguesia (CIA incluída) sabem que o capital vai precisar de gerentes mais fortes em todo o mundo de agora em diante. O Brasil incluído.

Golpe de estado?
Concretamente, não há condições objetivas nem subjetivas para um golpe militar hoje no Brasil. Com exceção de uma meia dúzia de facínoras e psicopatas, os dois milhões que marcharam domingo passado não se dispõem a qualquer confronto direto, armado, militar. Eles apenas gritam, xingam e votam. Aliás, não foram poucos os participantes das manifestações que se fotografaram ao lado de policiais de tropas de choque. A possibilidade de um golpe, pois, exige que forças armadas o patrocinem, o realizem e o sustentem. E as Forças Armadas Brasileiras (Exército, Marinha e Aeronáutica) ainda não construíram a coesão necessária ao protagonismo de um golpe de estado após a redemocratização, mesmo que já passados trinta anos. Para o golpe de 1964, o país contava com militares formados no fogo da II Guerra Mundial, com militares que protagonizaram a própria redemocratização de 1946 e que, portanto, se constituíram em elemento ativo e decisivo na cena política nacional nos vinte e cinco anos anteriores a abril de 1964. De outro lado, não se pode falar – infelizmente – de uma ameaça proletária ao poder burguês, o que configurou o clima político pré-64. Internacionalmente, o quadro é completamente diferente. O debacle da OEA (Organização dos Estados Americanos), na prática uma organização a serviço do imperialismo norte-americano, sinaliza para uma perda da capacidade de manipulação direta dos EUA sobre a América Latina, Brasil incluído neste caso. Um golpe militar no Brasil, hoje, certamente aguçaria e radicalizaria as lutas de classes na Venezuela, Equador e Bolívia em direção a uma ruptura revolucionária. Não, não há perigo iminente de um golpe militar no Brasil.

De todo modo, pode-se prever um crescimento institucional da extrema direita no país, mesmo com a diminuição do ritmo e intensidade das suas manifestações de rua de agora em diante. O próprio Aécio Neves – espertalhão e malandro como sempre – formulou o pretexto de que não queria partidarizar as manifestações para não sair à rua no domingo. Ele, expressando a estratégia da extrema direita, vai procurar carrear todo o descontentamento visto nas manifestações para o leito institucional. A grande mídia junto, firme. Assim, é de se prever um crescimento do potencial eleitoral da extrema direita no país, o que certamente colocará em cheque a possibilidade de uma vitória de Lula em 2018, já que é preciso ter em conta que o aprofundamento da crise capitalista no país desenha um cenário bem diferente, oposto mesmo, daquele vivido por Lula em seus dois mandatos e até mesmo por Dilma até mais da metade do seu. Inflação, déficits comerciais e de pagamentos, queda da produção industrial, queda do emprego, queda dos preços das comodities brasileiras, superávits primários insuficientes para fazer frente aos juros da dívida etc. etc. – este é o horizonte à frente de Dilma Roussef.

Mas o vento que venta aqui é o mesmo que venta lá, diz o ditado. Ao mais que previsível empobrecimento do proletariado brasileiro nos próximos anos corresponde naturalmente a hipótese concreta de uma reativação do movimento do proletariado brasileiro, hoje dominado por forças e ideologias reacionárias do sindicalismo pelego, com o segmento à esquerda hegemonizado por forças neorreformistas e trotsquistas. Mas é no fogo das lutas que se prenunciam no interior daquele agravamento da crise capitalista que poderá nascer e fortalecer um movimento de trabalhadores verdadeiramente proletário e independente, em um mesmo processo de fortalecimento de uma esquerda verdadeiramente marxista – sempre causa e consequência do aguçamento das lutas de classes. Agora, é o momento de acumular forças no seio do proletariado e enquanto esquerda. Que as fações da direita e da extrema direita da burguesia enterrem seus mortos.

Venceremos!


 

 




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