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A extrema direita sai da toca

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Um esclarecimento inicial, necessário: o Movimento Marxista 5 de Maio-MM5 propôs e defendeu o voto nulo nos dois turnos das últimas eleições. E voltaremos a fazê-lo sempre que o quadro conjuntural se mostrar o mesmo, ou seja, com os trabalhadores concretamente ausentes do processo eleitoral enquanto trabalhadores. O imediatismo dos partidos de esquerda (PCB, PSOL, PSTU e PCO) que se apresentaram ao pleito não lhes permitiu identificar os limites férreos impostos por uma conjuntura em que a propaganda abstrata e aleatória de propostas socialistas (que é o que fizeram e o que podiam fazer) somente resultaria, como resultou objetivamente, em uma involuntária ação legitimadora da institucionalidade capitalista.

Em texto anterior afirmamos que as candidaturas Aécio e Dilma davam corpo a estratégias de governo neoliberais – o que as tipificam portanto como de direita, com a candidatura de Aécio Neves congregando então em torno de si a extrema direita política do país.

O que era até então imprevisível é a dimensão da feroz brutalidade catalisada pela candidatura tucana, em que não faltaram agressões a eleitores que ousaram anunciar em público seu voto em Dilma Roussef. Na realidade, o que está em andamento no país, a partir do processo eleitoral, é a formação de uma frente – mesmo que ainda ideológica – de extrema direita. Não são poucos os apelos diretos e indiretos a um golpe de estado ao estilo 1964, inclusive a propósito de hipotéticas fraudes eleitorais, como no caso dos dois mil manifestantes que foram à rua em São Paulo pedindo o impedimento da presidente reeleita.

Este número – cerca dois mil manifestantes – poderia à primeira vista parecer insignificante, mas sua dimensão pode ser ampliada politicamente às nuvens se àquela manifestação juntarmos o posicionamento quase unânime da mídia nacional, com raríssimas exceções – como o O Tempo (BH) e a Folha de S. Paulo, que procuraram manter uma posição de mínima decência jornalística, digamos, no quadro das contradições aguçadas pelo processo eleitoral.

Pois o comportamento geral da grande imprensa brasileira surpreende hoje até mesmo se tendo em mente os episódios que resultaram no suicídio de Vargas (1954) e no golpe de estado de 1964. As alegações do conspiracionismo fascista que marcaram aquelas conjunturas como que renascem das cinzas: corrupção, ameaça comunista (agora denominada “ameaça bolivariana”) e inflação. Não se tem notícia da existência de um batalhão tão bem articulado de articulistas e analistas a panfletar ódios e chamamentos diretos e indiretos ao golpe de estado nas diversas mídias: William Waak, Demétrio Magnoli, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino e Luiz Felipe Pondé, entre outros.

Este último, em artigo recente na Folha de S. Paulo (04/11), tomou das mãos do candidato Levy Fidelix (lembram-se?) a bandeira da ‘ameaça bolivariana’. Mas Pondé se dá o luxo de ir mais longe. Para ele, já não se trata de uma ameaça, mas de uma realidade: garante e repete que o governo Dilma é um governo “bolivariano”, com tudo de depreciativo que atribui ardilosamente ao termo. Engana-se quem supuser que tais porta-vozes do apocalipse expressam opiniões puramente individuais. Entre as empresas que os empregam e lhes dão espaço se encontram meios de comunicação (Veja, Estado de S. Paulo, O Globo, Sistema Globo de Televisão etc. etc. etc.) os mais reacionários de que se tem notícia em todo o mundo, literalmente.

Ironicamente, as especulações veiculadas pela propaganda petista de que uma eventual vitória de Aécio Neves implicaria a possibilidade concreta de um golpe de estado, vê-se agora, se realizam em sentido contrário, como aliás apontaria uma análise objetiva. Agora, concretamente, fora do poder central, a extrema direita caminha ideologicamente em busca de um golpe de estado.

É que, mesmo sabendo que nunca neste país ganhou tanto quanto nestes doze anos petistas, a burguesia aqui instalada sabe que muito provavelmente terá pela frente mais outros doze anos de governo petista: os quatro de Dilma mais os oito de Lula, que já anunciou que pretende seguir à sua criatura na presidência da República. Se Lula sobreviverá politicamente até 2018 é difícil prever. Mas hoje a possibilidade maior é mesmo de que ele vai suceder a Dilma. E ainda que não falemos nos futuros anos Lula, já os próximos quatro anos deste segundo mandato Dilma se prenunciam como de agudo agravamento da crise capitalista. E aqui entra uma questão decisiva para a compreensão da conjuntura política que se abre no país.

Aprofundamento da crise
O horizonte econômico do país está povoado de densas nuvens negras: ampliação do déficit orçamentário, redução mais que significativa do superávit primário, déficit nas transações externas, queda das cotações internacionais das chamadas comodities brasileiras, déficit na balança comercial e de pagamentos, crescentes dificuldades de refinanciamento da dívida pública interna e externa etc. etc. Os sinais de recuperação da economia dos Estados Unidos (crescimento médio de 3,5% nos dois últimos trimestres) apenas apontam para o agravamento da crise em nível mundial, já que os capitais que sustentam tais indícios de recuperação daquele país para lá acorrem exatamente na impossibilidade – e insegurança – de aplicação financeira nos demais países do sistema, inclusive nos de centro, com exceção da Inglaterra, este, o único país capitalista europeu a apresentar níveis de crescimento compatíveis com a dimensão de sua economia. Na realidade, a valorização dos títulos do tesouro norte-americano implica automaticamente a fuga para lá de capitais que acorreriam para o mercado financeiro brasileiro. Resultado no médio prazo: uma nova crise da dívida externa pela redução do ingresso de dólares.

É sabendo deste agravamento no curto prazo que a burguesia jogou suas fichas na candidatura Aécio. O governo petista, o sabe igualmente a burguesia, não pode abrir mão daquela linha estratégica do estado mínimo neoliberal constituída pelas políticas compensatórias. Sabe igualmente a burguesia aqui instalada que um governo petista não poderia fazer uma reforma previdenciária capaz de desviar para seus bolsos o volume de recursos necessários à manutenção de suas taxas de lucros. Também uma reforma trabalhista de profundidade capaz de transformar direitos dos trabalhadores em dinheiro barato e fácil para a burguesia colocaria em risco fatal a possibilidade de o PT manter suas bases políticas e eleitorais junto ao proletariado. E o PSDB não possui uma base classista de trabalhadores a lhe sustentar eleitoralmente e à qual prestar contas, capacitando-se, se necessário, a operar as “mudanças fiscais e tributárias para tornar o Brasil competitivo”, como no coro hoje entoado por tucanos e fascistas.

Mas um golpe de estado no curto prazo é inviável. Como temos afirmado, para a ocorrência de um golpe de estado é necessário mais que a vontade de golpistas e fascistas. Em primeiro lugar, não existe ainda uma coesão das Forças Armadas para tal empreitada, mesmo que recentemente segmentos da ativa e da reserva tenham se manifestado de maneira hostil a iniciativas do Executivo, acenando mesmo para uma insubordinação constitucional. Na realidade, vivemos uma realidade em que um eventual confronto aberto de classes pelo poder está fora do horizonte. Em síntese, o proletariado não constitui hoje uma ameaça ao poder burguês – e esta é a exigência básica de um golpe de estado, como ensina a história.

Assim, o eixo estratégico da conjuntura pós-eleitoral e dos primeiros anos do novo governo Dilma Roussef é o de um aguçamento da luta entre a direita no poder e uma extrema, ainda ideológica. A possibilidade de esta extrema direita assumir o patamar político, ou seja, de organizar-se politicamente, demandará algum tempo, já que os partidos políticos, PSDB e DEM, que poderiam dar materialidade ao já presente processo de unificação ideológica foram condenados à falência pelo resultado das eleições.

Para se defender do assédio da extrema direita certamente o PT chamará o proletariado em seu socorro, mesmo tendo pouco ou nada a oferecer em troca. O mais provável é que ofereça promessas e entregue, de fato, apenas mais umas poucas migalhas – como dissemos, a crise tende a esvaziar os cofres públicos. Mas o que é certo é que não há vazio em política. A soma da crise política no interior da burguesia, entre as facções da direita e da extrema direita, com o inescapável empobrecimento relativo com que se defrontará o proletariado brasileiro no curto prazo abrirá um horizonte de lutas e de avanço do movimento dos trabalhadores.

A nós, marxistas, caberá a dura tarefa de extirpar o oportunismo e o imediatismo do movimento dos trabalhadores, dando lugar ao surgimento de um proletariado ideologicamente independente e politicamente organizado. Pronto para lutar e vencer. Venceremos!


 

 




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