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UPPs criminalizam proletariado das favelas e abrem mercado ao grande capital

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Em abril, o país inteiro tomou conhecimento da morte do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, do programa da apresentadora Regina Casé, ocorrida no morro do Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro. Em março, outro crime hediondo já havia chocado o país, quando a manicure Claudia Silva Ferreira foi arrastada e morta por uma viatura da PM durante incursão policial no morro da Congonha, também no Rio.

Os dois episódios relatados e dezenas de outros já ocorridos no Rio e em várias capitais mostram a barbárie promovida diariamente pelo estado burguês contra o proletariado, nas favelas e periferias brasileiras. No caso do Rio, porém, essa barbárie vem sendo ainda mais potencializada pela política de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) implementada em 2008 pelo então governador Sergio Cabral Filho (PMDB), com apoio de Dilma Rousseff, Lula (PT) e de praticamente toda a direita brasileira. O morro onde DG foi morto (Pavão-Pavãozinho) é uma das 37 favelas onde UPPs já foram implementadas. A intenção do governo do Rio é de chegar a 40 UPPs até o final de 2014.

Militarização total da vida nas favelas
O caráter mistificador das UPPs já começa quando, no próprio nome dessa ‘estratégia’ de (in)segurança pública, o estado inclui a palavra ‘pacificação’, numa clara tentativa de escamotear a real tentativa de militarizar o cotidiano do proletariado das favelas, que, assim, passa a ser ainda mais oprimido e vigiado por uma espécie de ‘big-brother’ com porrete na mão.

Um exemplo de até onde pode ir tamanha mistificação foi dado durante a recente ocupação das favelas da Maré por forças da PM e do Exército: matéria publicada no Globo Online do dia 30 de março deste ano, sobre a referida ocupação, veio acompanhada de foto de um policial militar carregando no colo uma criança da Maré. Com a mão direita e sorrindo, o PM da foto segura uma bandeira do Brasil. Assim, com a ajuda do símbolo máximo da nacionalidade (bandeira), intenta-se uma ‘naturalização’ da brutalidade policial e da militarização da vida das favelas ocupadas pelo estado com sua política de UPPs.

Toda essa brutalidade e militarização visam, num primeiro momento, ‘criminalizar’, ‘disciplinar’ e ‘intimidar’ os moradores de favelas para que, durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas, ‘não causem problemas’. Ou seja: para que não ousem protestar contra suas absurdas e inaceitáveis condições de existência ou perturbem os projetos do grande capital em curso no país a partir desses megaeventos.

No entanto, em uma dimensão ainda mais aprofundada, e para além dos citados megaeventos, o que se tem é a tentativa de construção das bases do que poderíamos chamar de uma ‘sociedade policial’, e não apenas de um ‘estado policial’. Se, num primeiro momento, é explícita a brutalidade praticada pelo estado nessas favelas, por outro busca-se, a médio e longo prazos, estabelecer uma relação quase umbilical entre o próprio estado e os moradores dessas ‘comunidades’, que passam então a ser convidados a participar de projetos de ‘inclusão’ e ‘ascensão’ social.

UPPs abrem caminho para ONGs e empresas
É a partir daí que entram em cena as empresas privadas e ONGs como ‘complemento’ e ‘suporte’ da ‘pacificação’ via UPPs, consolidando essa relação umbilical (estado, trabalhadores e empresas) que, por sinal, é uma das características que historicamente marcaram os estados de corte fascista e corporativo.

Em termos objetivos, essa participação de empresas e ONGs já foi concebida no próprio nascedouro do projeto das UPPs e, no momento, vem sendo praticada em número significativo de favelas ‘pacificadas’. Alguns dos chamados ‘parceiros’ das UPPs são: Coca-Cola, ​ Grupo EBX (do megaempresário Eike Batista), Odebrecht, Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ​​Light, Instituto Pereira Passos, Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) e a ONG Viva Rio, entre vários outros. Nas favelas onde atuam, essas empresas e ONGs ensinam cursos de ‘empreendedorismo’ (disseminando valores capitalistas e burgueses), faturam milhões em obras de infraestrutura e atuam como elementos centrais na privatização de serviços públicos como saúde, educação e coleta de lixo.

À guisa de conclusão, cabe lembrar que o discurso de defesa das UPPs divulgado por governo e imprensa burguesa sempre expressou uma mistificação comum produzida pela ideologia dominante, qual seja: a que afirma estar o estado, via UPPs, se fazendo presente pela primeira vez nas favelas ‘pacificadas’, onde implementaria uma espécie de ‘ocupação social’. O que é absurdo por dois motivos básicos: primeiro, porque nunca houve ‘território de exclusão’ no qual o poder do estado burguês não se fizesse presente. Segundo, porque, ao contrário do que diz a ideologia burguesa, a forma pela qual o estado burguês sempre se fez presente nas favelas e periferias foi mesmo pela utilização intensiva do terror e da violência policial.

Cabe a todos os revolucionários e militantes da esquerda brasileira denunciar a política de UPPs como mais uma brutalização produzida pelo estado burguês nas favelas e periferias, a serviço do grande capital e da militarização-mercantilização da vida.


 

 




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