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Golpe de 64: Honrar os ideais dos que tombaram!

É no mínimo vergonhosa a postura assumida pela maioria da esquerda brasileira na abordagem dos 50 anos do golpe militar de 1964. Por esquerda deve-se presumir uma corrente de pensamento e ação voltada para a instalação de algum tipo de sociedade socialista. E o que se vê hoje no Brasil é o socialismo jogado para fora dos muros da prática e até mesmo da teoria política por uma esquerda permanentemente dedicada a se fartar nas delícias do banquete democrático. Há, é verdade, segmentos da esquerda brasileira, como nós do MM5, que há muito constataram a elementar evidência de que a democracia é essencialmente um modo de organização/ação do estado burguês. Outros segmentos, ora em busca de se livrarem de uma pesada herança revisionista, começam a adotar uma concepção estratégica em que a democracia tende a ser vista como ela é – um instrumento da dominação capitalista. No entanto, somos ainda muito minoritários no conjunto da esquerda brasileira.

Ademais de ridícula, uma matreira reinterpretação do golpe de 64 pela maior parte desta esquerda insiste hoje em que o regime político instalado não teria sido propriamente uma ditadura militar, mas uma ‘ditadura civil militar’. A ideia, afirma esta esquerda, é que significativos segmentos do que chamam de ‘sociedade civil’ não apenas participaram do golpe, como igualmente deram sustentação política à ditadura.

Na realidade, a especulação acima implica objetivamente livrar os militares pelos crimes de lesa humanidade que cometeram nestes anos, mesmo que não se tenha tal intenção na maioria dos casos. Não em todos. Hegemonizada por reformistas e trotsquistas, anti-marxistas portanto, a esquerda brasileira é por isso mesmo particularmente mal preparada mesmo se considerada a partir dos atuais já rebaixados parâmetros internacionais. Ora, qualquer manual sério de lições elementares de ciência política esclarece muito bem que todas ditaduras militares servem fundamentalmente a uma classe social, no caso capitalista à classe burguesa. E sempre foi assim que os marxistas tipificamos e continuamos tipificando o regime instalado no país em 1º de abril de 1964: uma ditadura militar burguesa. Porque então esta conversa fiada de ‘ditadura civil-militar’? Obviamente porque o combate a um regime burguês, democrático ou ditatorial, só pode ser real e consequente se levado pelo inimigo histórico da burguesia, o proletariado, na linha da instalação de um estado socialista. Mas a pequena burguesia, alertou Marx, não quer destruir a sociedade e o estado burgueses, não quer erguer outra sociedade, mas apenas melhorar suas condições de vida na própria sociedade capitalista. Para isso, nada melhor que a democracia, vendida e comprada por esta esquerda como sinônimo de liberdade e justiça para a classe trabalhadora, o que configura uma deslavada mentira de três séculos que, por três séculos contada, assume a fraudulenta condição de verdade. Goebels, ministro de Hitler, é que entendia bem disso. Nós, os marxistas, não temos nenhum compromisso com a democracia, mas, sim com a liberdade, sabedores que somos de que o proletariado é a única classe social da sociedade capitalista cujos interesses concretos e históricos remetem para uma sociedade de homens livres, de uma humanidade efetivamente livre.

É por tudo isso, não apenas por ignorância, mas por interesses de classe em jogo, que esta esquerda pequeno-burguesa brasileira se presta hoje ao vexame de se referir às crueldades a que a ditadura burguesa submeteu milhares de brasileiros – com algo em torno de 360 assassinatos – como se fosse este o eixo das referências à passagem dos cinquenta anos do golpe. Sim, perdemos valorosos camaradas e companheiros na luta contra a burguesia. E a melhor maneira de homenageá-los deve ser a constatação e divulgação desta verdade decisiva: a luta que se travou tanto antes do golpe quanto durante a ditadura não foi uma luta pela democracia, mas sim pelo socialismo. Que não se contem, por um mínimo respeito aos que de fato lutaram, os conhecidos surfistas da redemocratização, que percebendo com a argúcia própria a este tipo de ratazana, que o barco da ditadura fazia água, montaram na mansa onda da democratização que os conduziu ao porto seguro do chamado estado de direito. Se existisse no Brasil uma Comissão da Verdade realmente preocupada em resgatar a verdade histórica, o que primeiro teria que vir à tona é que a democracia reinstalada aí por volta de 1985 nada, absolutamente nada, tem a ver com os ideais de justiça e humanidade por que lutaram aqueles brasileiros que sucumbiram às armas e à selvageria da burguesia.

 

A extrema direita, por seu lado, busca justificar toda esta selvageria imposta pelo golpe através do fato – isso mesmo, um fato histórico inegável – de que o país vivia em março-abril de 1964 a iminência de se tornar um país socialista – no linguajar ignorante dos militares, um ‘república sindical comunista’. Sim, não houvesse ocorrido o golpe o mais provável é mesmo que a radicalização das lutas de classes se encaminhasse para uma crise revolucionária, quadro em que a tomada do poder pelo proletariado se colocaria como passo imediato. O que significaria fatalmente o fim do estado burguês e da sociedade burguesa no Brasil, com a necessária extinção da propriedade privada dos meios de produção, a sagrada propriedade privada burguesa.

Porque, então, a atual esquerda brasileira hegemonizada por trotsquistas e reformistas omite esta verdade cristalina? Porque, respondemos, esta esquerda tirou de seu horizonte a tomada do poder pelo proletariado e a instalação de um estado e de um governo da classe proletária como meta estratégica. Porque, respondemos, não eram os trotsquistas as forças hegemônicas no movimento operário de então. E porque, respondemos, a radicalização objetiva das lutas do proletariado apontavam já para a perda da hegemonia então detida pelo reformismo. A defesa que fazem hoje trotsquistas e reformistas da democracia enquanto uma ‘tática no caminho ao socialismo’ na realidade configura, ou esconde, uma estratégia e um programa democráticos, tomados aberta ou veladamente por eles como valores universais.

E é por operar na mesmíssima linha hoje operada pela direita, atualmente no poder, de defesa e consolidação da democracia que esta esquerda embarca neste tipo de referência comemorativa do golpe adotando uma opaca mistura de uma primária condenação a-classista do golpe com uma orgiástica louvação da democracia. Que se repita e enfatize: fazer justiça à vida e à morte das vítimas da ditadura tem que significar manter nos mais elevados níveis do humanismo e da solidariedade o patamar em que torturados e assassinados construíram seus sonhos de libertação do proletariado como caminho de libertação da humanidade.

Aos marxistas, pois, não nos cabe somarmos a este festim diabólico de autoproclamações e falsos heroísmos forjados pela burguesia – mídia, universidade, governo etc. – para dissimular o caráter de classe do golpe de 1º de abril de 1964. Temos que resistir a isso. Como se sabe, a própria saída da ditadura foi docemente dirigida e capitaneada pela burguesia, devidamente assessorada pelos eternos asseclas pequenos burgueses no início dos anos 80, com o apoio decisivo, hoje sabemos mais claramente, de lideranças operárias emergentes – Lula foi a principal delas. Agora, os potentes meios de educação e comunicação da burguesia partem para a concretização do extermínio ideológico daqueles combatentes que os militares assassinaram fisicamente a serviço desta mesma burguesia. A melhor maneira, pois, de homenagearmos os que tombaram é manter vivos os ideais por que lutaram.

Fora os ladrões de ideais!
Venceremos!


 

 




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