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Neoliberalismo e fascismo

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Tomem-se corporativismo, racismo e xenofobia e teremos os ingredientes básicos do fascismo. Acrescentem-se estupidez, grosseria e violência gratuita como temperos adicionais e a receita estará completa. E outra coisa não foi a exposição desta asquerosa receita o que se viu na segunda-feira passada, 26/08, em Fortaleza no desembarque dos médicos estrangeiros – cubanos em sua maioria – que se dirigiram à capital cearense para um curso de adaptação do programa federal Mais Médicos, que busca suprir a carências de profissionais da saúde em municípios do interior do país.


Como se sabe, o recurso a médicos estrangeiros – há no projeto alguns poucos médicos brasileiros residentes no exterior – surge no programa como terceira opção de preenchimento de vagas já prioritariamente oferecidas, e explicitamente por eles recusadas, a médicos brasileiros. Sequer consideraremos aqui a alegação dos médicos brasileiros de que os estrangeiros, sempre lembrando a maioria de cubanos entre estes, não teriam preparo suficiente para o exercício da medicina. É de conhecimento geral o nível rasteiro do ensino da profissão na quase totalidade das faculdades brasileiras, em sua enorme maioria privadas. Como é de conhecimento de pessoas minimamente informadas o nível de excelência, internacionalmente referendado por entidades respeitadas do setor, dos profissionais da medicina formados em Cuba.


Mas é preciso identificar as causas mais de fundo que propiciaram a emergência daquela manifestação à beira da hidrofobia verificada em Fortaleza, na qual não faltaram insultos e agressões verbais de natureza indisfarçavelmente racista a profissionais cubanos, acusados, entre outras coisas de serem... “escravos”, sob a alegação de que a maior parte do salário que ganharão aqui será transferida ao governo de seu país. O que os integrantes daquele bando fascistoide jamais vai entender é que a universidade cubana forma profissionais para atender prioritariamente a interesses coletivos e, a partir disso, às suas necessidades e aspirações pessoais. Entender isso está claramente fora do alcance das estreitas mentes corporativistas do bando que se agrupou no aeroporto de Fortaleza para vaiar, xingar e agredir trabalhadores que aqui vieram fazer um trabalho que, por comodidade e individualismo mórbido, os integrantes deste bando e seus pares se recusaram a fazer.


O fato é que as críticas pela direita ao programa federal se multiplicaram praticamente por todas as capitais brasileiras. O movimento – à frente os famigerados Conselhos de Medicina, verdadeiras aberrações corporativas diretamente herdadas do catecismo fascista – se apropriou de uma mais que justificada e generalizada insatisfação dos trabalhadores e, de outro lado, dos próprios profissionais da saúde com a assustadoramente progressiva deterioração dos serviços da saúde pública no país: escassez de verbas, fechamento de hospitais, falta de material elementar, privatização e terceirização de serviços essenciais, carência de leitos, inexistência de práticas preventivas, descaso, morte. E o nome da causa de fundo de todo este quadro apocalítico é neoliberalismo.


Assistencialismo neoliberal

O neoliberalismo – estratégia de política econômica que carreia para os bolsos dos capitalistas nacionais e internacionais todos os recursos captados pelo aparelho estatal – tem como coluna básica de sustentação o abandono oficial dos interesses econômicos dos trabalhadores (e a saúde pública é um interesse econômico, sabemos).


Ou seja, saúde, educação, transporte, moradia, saneamento etc. não são incluídos entre as metas estratégicas das ações de governo, figurando apenas como programas emergenciais e paliativos, como o caso do Bolsa Família e deste próprio programa Mais Médicos, típicos de toda esta filosofia assistencialista do neoliberalismo. Note-se, é bom lembrar, que o neoliberalismo não foi uma opção do capital movida por maldade pura. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência do próprio sistema diante da crise mundial instalada já em meados dos anos 70 do século passado.


Mas o neoliberalismo não é uma máquina de moto próprio. É preciso que homens, políticas e ideologias a ponham a funcionar. E aqui se destaca o denodo, a aplicação e a competência com que os governos Fernando Henrique, Lula e Dilma colocaram mãos à obra a serviço dos lucros da burguesia na razão direta do aprofundamento da exploração dos trabalhadores, do empobrecimento dos trabalhadores.


Corporativismo

Fruto das políticas desenvolvidas no interior de metas estratégicas neoliberais, avoluma-se progressivamente o desemprego entre todas as categorias de trabalhadores, o que constitui terreno fértil para o surgimento e acirramento da concorrência dos próprios trabalhadores entre si pelos cada vez mais escassos postos de trabalho. É neste cenário que floresce a erva venenosa do corporativismo, principalmente entre aqueles de proximidade com a pequena burguesia ou de origem pequeno-burguesa em processo de proletaização. É sob este parâmetro deve ser considerada a postura da até agora maioria dos médicos brasileiros contra o programa Mais Médicos.


O corporativismo – um dos pilares do fascismo, como dissemos – concretiza ações em que a força coletiva da união entre trabalhadores é utilizada em busca de objetivos individuais, com aberto desprezo ao interesse coletivo de curto, médio e longo prazos da classe trabalhadora como um todo. Daí, o incontornável efeito de dividir os trabalhadores em sua luta maior contra o capital, em desfigurar esta luta através de sua fragmentação. E isso é tudo o que quer e sempre quis a burguesia, os capitalistas, os patrões e seus serviçais, como o governo Dilma e seus antecessores a perder de vista.


De passagem, mesmo que de passagem, será útil aqui lembrar que não podemos confundir corporativismo com interesse de classe. O proletariado rigorosamente não deve ter nenhum compromisso de princípio com a “sociedade”, ou seja, com a sociedade burguesa. Ao proletariado interessa historicamente destruir as relações sociais capitalistas, a sociedade capitalista. Uma coisa são as razões humanitárias que devem prevalecer em qualquer iniciativa de luta do proletariado. Outra, diferente e oposta, seria defender a reprodutibilidade da exploração capitalista. O papel da greve, principal arma dos trabalhadores, é exatamente quebrar elos da corrente da reprodução cotidiana da exploração capitalista.


O vício corporativista, portanto, não se justifica em hipótese alguma, em nenhuma situação. Cabe, então, aos trabalhadores da saúde denunciar esta postura fascista com que tem sido tratado o programa Mais Médicos, mas denunciar e combater pela esquerda, exigindo, por exemplo, que sejam destinados à saúde pública os gordos recursos hoje carreados para os bolsos dos Eikes Batistas e Antônios Ermírios de Morais, dos bancos e das empresas privadas nacionais multinacionais. Mas nada, absolutamente nada, justifica a hipótese de deixarmos de prestar assistência médica imediata aos trabalhadores que vivem afastados dos grandes centros, abandonando-os criminosamente à própria sorte, ou seja, à incapacitação e à morte precoce.


Abaixo o corporativismo fascista!

Abaixo o assistencialismo neoliberal!

Venceremos!


 

 




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