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‘Black Blocs’ x conciliadores

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Quando Marx afirmou que cada passo do movimento real valia mais que uma dúzia de programas, em sua “Crítica ao Programa de Gotha”, referia-se obviamente à necessidade imperiosa de os partidos e organizações que se propõem a liderar o proletariado submeterem seus programas, estratégias, táticas e propostas ao crivo do choque de realidade proporcionado pela emergência daquele movimento real.


Nada parecido, destaque-se, com o vício obreirista do espontaneísmo, que se orgulha em dispensar a arma revolucionária da teoria, sem a qual, na conhecida formulação de Lênin, não há prática digna de ser chamada de revolucionária. No próprio “Gotha” Marx se refere àquele programa denominado Manifesto do Partido Comunista, de 1848, escrito a quatro mãos por ele e Engels quase trinta anos antes como compreensão geral do cenário de desenvolvimento das lutas de classes que se abria no continente europeu e como fixação de linhas gerais e objetivos que deveriam parametrar a ação dos revolucionários naquele cenário.


É igualmente no fogo do movimento vivo que partidos e organizações de esquerda se veem obrigados a colocarem à prova suas teses e propostas. E, com a recente emergência do movimento de massas no país, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), o maior partido de esquerda do país, foi severamente reprovado, escancarados, pelos seus posicionamentos e pelos próprios fatos, os vícios pequeno-burgueses do imediatismo, do hegemonismo e do oportunismo que vêm tipificando sua atuação.


A absolutamente inadmissível aliança que o PSTU propõe e faz com as centrais sindicais pelegas-reacionárias-patronais-governistas exibe à exaustão um tipo de messianismo de quem se julga capaz de manipular a luta de classes a seu bel prazer e esperteza. Na linha contrária e antagônica a uma proposta verdadeiramente proletária de fortalecimento da esquerda junto ao proletariado através da crítica intransigente e inegociável àquelas centrais, o PSTU opta pelo caminho de se aliar às mesmas como hipotético meio, alega, de chegar às suas bases. Desastroso, no mínimo. Em artigo anterior, acreditamos já haver denunciado tal posicionamento como contrário à criação de um proletariado independente organizatória e ideologicamente no país, linha estratégica de adoção obrigatória para quem quer que se declare marxista.


Pontas-de-lança

Nesta mesma ótica de absoluta incompreensão dos critérios até mesmo elementares de atuação de uma vanguarda marxista, o PSTU acaba de publicar em seu site um longo artigo de crítica à ação dos chamados “Black Blocs”, movimento que se tem destacado por ações mais radicalizadas no corpo das manifestações que varrem o país. Especificamente, estes jovens – na maioria se trata de jovens – se colocam nas fileiras de frente das manifestações como pontas-de-lança contra a brutal repressão policial posta em prática pelo estado burguês. E avançam. Em sua passagem, atacam bancos e lojas luxuosas, prédios públicos e particulares. Danificam a propriedade privada. O PSTU acha isso muito ruim. Vejamos o que Marx e Engels acham disso:


“Os operários não só não devem opor-se aos chamados excessos, aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o povo só possa relembrar com ódio, não somente devem admitir tais atos, mas assumir sua direção.” (Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas, em Karl Marx e Friedrich Engels, Textos 3. São Paulo, sem data. Editora Alfa Ômega. Grifo nosso.)


Este texto foi escrito em março de 1850 como linha geral para atuação dos comunistas alemães na conjuntura de retomada do movimento de massas após as derrotas heroicas do proletariado daquele país nas jornadas de 1848/49. Uma conjuntura, pois, de ressurgimento do movimento unificado dos trabalhadores como a que se configura atualmente no Brasil. E a preocupação que permeia todo o texto dos fundadores do marxismo é exatamente a de preservar a independência do proletariado na conjuntura de lutas de classes que se abria então, preocupação, aliás, que constitui elemento estruturante de todo o edifício marxista.


Segundo o texto veiculado pelo PSTU, a ação dos ‘black blocs’ dá aos empresários “...um argumento para jogar a opinião pública – e muitos trabalhadores – contra as manifestações e, assim, preparar a repressão”. Ora, pergunta-se, desde quando a burguesia precisa de “argumentos” para massacrar os trabalhadores? A partir desta suposição do PSTU estariam os trabalhadores igualmente proibidos pela mesma lógica de ocuparem fábricas e campos, já que isso daria argumento à burguesia para reprimi-los. Decididamente há algo de errado aí.

Como da mesma maneira equivocada é a afirmação do partido trotsquista de que a ação dos ativistas a quem a mídia burguesa chama insidiosamente de ‘vândalos’ se enquadraria na linha de ações isoladas das massas, padecendo por isso mesmo do erro do vanguardismo. Outro equívoco. Se as mais significativas manifestações tem sido até agora espontâneas não há que falar em isolamento ou ação isolada. O que ocorre de fato é que as múltiplas, diferenciadas e mesmo adversas reivindicações postas nas manifestações expressam o isolamento de cada uma das forças que, espontaneamente, integram as mobilizações. Elementar.

Ficando claro
Mas as coisas ficam mais claras quando a nota do PSTU afirma que os ‘black blocs’ “Entram nas passeatas e, sem que tenha havido qualquer deliberação por parte dos manifestantes ou dos grupos que organizaram o protesto, atacam de forma provocativa a polícia, que reage, sistematicamente, reprimindo e muitas vezes acabando com as mobilizações.” Então é isso: o PSTU exige que os companheiros que até agora tem nobremente se postado na linha de frente das manifestações peçam licença ao estranho agrupamento formado pela Conlutas, CUT, UGT, CSTB, CGT etc.? É isso mesmo? E aqui se manifesta de maneira clara e incontestável o messianismo de corte nitidamente trotsquista encarnado pelo PSTU, cuja prioridade primeira é colocar o movimento debaixo do braço mesmo que à custa de princípios e do conteúdo deste movimento.


O que se tem visto nas manifestações é aquelas centrais pelegas-governistas com as quais a Conlutas insiste em se aliar dispararem do alto de seus potentes carros de som gritos de “sem violência”, “nosso movimento é pacífico” etc., não tendo sido raras as vezes em que tais centrais (aqui excluída a Conlutas) partiram para entregar e dedurar os ‘vândalos’. Será que o PSTU não é capaz sequer de desconfiar que aqueles apelos de boa convivência com a burguesia que parte dos alto-falantes pelegos e governistas apenas expressam a voz e os interesses da burguesia? Como consideramos a Conlutas e o PSTU, em seus respectivos campos, organizações sérias, honestas e comprometidas com a revolução socialista, deixamos aqui nosso apelo a que reflitam sobre estas questões.


Já alegação de que a ação policial de acabar com as manifestações é muitas vezes motivada por provocações dos ‘black blocs’ não é séria, pois que agride frontalmente a realidade dos fatos. A polícia parte para acabar com as manifestações exatamente por temer que o movimento se radicalize como um todo. Temos exemplos claros e recentes que comprovam que mesmo sem a presença dos ‘black blocs’ o movimento se radicalizou, com ocupações de secretarias estaduais e mesmo do próprio Palácio da Guanabara, no Rio.


A acusação do PSTU segundo a qual os ‘black blocs’ não têm programa poderia ser devolvida de bate-pronto pelos acusados. De fato, tal crítica lembra a conhecida fábula do lobo e do cordeiro, já que o que é criticado não é o comportamento em si, mas a falta de um programa anterior que o sustente. Com muitas e ótimas razões pode igualmente ser criticado o “Programa de Transição” trotsquista, na realidade um conjunto de palavras de ordem aleatório e descosturado, na mesma lógica lassaleana criticada por Marx em “Gotha”, que só faz rebaixar um programa socialista da ditadura do proletariado.


É por tudo isso que o MM5 não tem críticas a fazer ao comportamento e ações dos ‘black blocs’, pelo contrário. A indignação anticapitalista e o inconformismo que brilham em suas ações de combate à repressão policial e na defesa, isso sim, do movimento apontam para a necessidade de o proletariado construir caminhos próprios, anti-institucionais, em sua jornada histórica na trilha geral da luta pelo socialismo. Mesmo não participando nem efetivando ações semelhantes às dos ‘blacks blocs’ nas manifestações em curso, por imperativos quantitativos no interior de prioridades organizatórias, hipotecamos aqui nossa solidariedade política a estes valentes e combativos companheiros.


Venceremos!


 

 




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