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A “Comissão da Verdade” e o governo da mentira

O descaramento, a falta de vergonha, a mentira e o embuste constituem ingredientes inarredáveis dos princípios que presidem o funcionamento das sociedades divididas em classes sociais, ou seja, em que uma classe vive da exploração sobre outra classe. Enfim, é sempre preciso camuflar e escamotear o próprio fato da exploração e da injustiça enquanto estruturantes destas sociedades. Assim o tem comprovado fartamente a História. Assim ocorreu, ocorre e tem ocorrido no Brasil, da colônia escravagista aberta à república atual da escravidão assalariada. É preciso, inclusive, ter sempre em mente que a corrupção por dinheiro constitui não mais que uma faceta da corrupção ética generalizada que preside o funcionamento do sistema capitalista onde quer que este prevaleça. Enfim, sabemos, não será possível acabar com os males do capitalismo a não ser acabando com o próprio capitalismo.

De outro lado, a burguesia precisa passar uma imagem de intransigente defensora do princípio do trabalho honesto, da equidade, da isonomia e do não favorecimento. Nossos governos, proclamam os capitalistas, são governos de todos, para todos. E fazem questão de fazer constar entre os primeiros mandamentos de suas Constituições democráticas a ladainha de que todos são iguais perante a lei e que o poder “emana do povo”. E estas mentiras são de tal modo repetidas pelos aparelhos de reprodução da ideologia burguesa (meios de comunicação, igrejas, escola e família), que passam a constituir verdades aos ouvidos e olhos do trabalhador.

Quando, contudo, os fatos se avolumam a ponto de colocar em risco todo este mecanismo de dominação ideológica, os poderes burgueses se apressam a criar instrumentos e meios de neutralizar o perigo. Como é o caso da “Comissão da Verdade” criada no Brasil pelo governo petista diante das evidências e mais evidências de que o regime militar vigente no país no período 1964-85 constituiu-se em um dos mais sanguinários, criminosos e covardes de que nossa história tem notícia. No papel, a função da “Comissão” é a de investigar os crimes cometidos pelos governos militares. Mas há limites. O governo burguês atual sabe muito bem que não pode ir ao fundo da questão, já que poderia criar uma situação de descrédito público das Forças Armadas que, em última instância, constituem a garantia das instituições do capitalismo (sendo a propriedade privada dos meios de produção a primeira e principal delas) e do cumprimento das leis que põem em funcionamento estas instituições.

É neste quadro que se podem compreender os parcos poderes conferidos à “Comissão da Verdade”, na realidade limitada a tomar alguns depoimentos que certamente não resultarão em punição aos criminosos. E é também neste quadro que se entende a total passividade com que a presidente da República, senhora Dilma Rousseff, recebeu as ofensas a ela publicamente dirigidas pelo coronel da reserva Carlos Alberto Ustra, um conhecido e comprovado agente assassino e torturador da ditadura, em depoimento à “Comissão”. Entre outras ofensas, ele afirmou que a própria presidente é que deveria ser submetida a processos e devidamente condenada, já que, disse, se tratava de uma “terrorista” – termo com que assassinos e torturadores buscavam criminalizar os militantes que lutaram pelo socialismo durante a ditadura 1964-1985.

Mas há outra razão para a total passividade da presidente diante da agressão de que foi vítima: o governo perde progressivamente a vergonha e o que lhe restava de pudor, de autorrespeito. Quando pensávamos que tínhamos atingido o fundo do poço do servilismo governamental aos seus patrões capitalistas – nacionais e estrangeiros – ao final dos dezesseis anos em que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva viram coroados seus esforços na implantação de um cruel modelo neoliberal no país, eis que o governo Dilma consegue o milagre de aprofundar ainda mais o poço fétido do servilismo com uma nova onda de doações, eufemisticamente chamadas de privatizações, de bens públicos a uma sempre faminta burguesia: aeroportos, portos, petróleo, isenções fiscais de toda natureza, benesses tributárias, financiamentos oficiais a juros de pai para filho – ou de mãe para filho. E tudo isso feito descaradamente, sem nenhuma preocupação sequer de se parecer... sério.

E é no campo político, a pretexto de ampliar sua base de apoio e garantir governabilidade, que o governo parece empenhado em transformar o país em um deserto moral de oito milhões de quilômetros quadrados. Hoje, a famosa foto de Lula ao lado de Maluf na última campanha eleitoral pela prefeitura paulistana parece brincadeira de criança frente ao escandaloso volume de benesses concedidas a conhecidos mafiosos na construção dos equipamentos e prestação de serviços relativos à Copa do Mundo e às Olímpíadas, cuja realização no Brasil só favorece mesmo a burguesia, através de grandes negócios e negociatas. É para sustentar sua governabilidade (ou seja, sua capacidade de melhor servir à burguesia) que Dilma Rousseff acolhe em seu seio governamental figuras patéticas como Collor, Sarney, Renan Calheiros, Sérgio Cabral, Marcelo Crivella e gente do tipo.

No entanto, os mesmos fatores que, em última instância, levam o PT e aliados e mergulharem na lama da imoralidade aberta –  a imoralidade fechada a praticam naturalmente este e todos os governos burgueses pelo fato elementar de serem burgueses – operam no sentido de abrirem espaço histórico-conjuntural para a emergência do proletariado no cenário das lutas de classes abertas. Por mais espertezas que cometam o governo e a burguesia, não são eles capazes de evitar os danos irreparáveis que a atual crise mundial do capitalismo causarão à sua governabilidade, à sua força de dominação. Não é a primeira vez na história das lutas de classe que o proletariado parece vencido, dominado. E em todas as vezes os trabalhadores se reergueram, assumindo seu papel de sujeito histórico. E assim será.

Venceremos!


 

 




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