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Capitalismo e Barbárie

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No amanhecer da sexta-feira 22 de março uma feroz tropa de choque da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro se lançou de unhas e dentes, bombas e escopetas, contra um grupo de aproximadamente quarenta desarmados indígenas que tentavam resistir à ação policial de desocupação do prédio onde moravam, no antigo Museu do Índio, na região do estádio Maracanã no Estado do Rio de Janeiro. Em torno do meio-dia a missão era dada por cumprida: agredidos, atingidos por balas de borracha, afogados por bombas de gás, espancados e humilhados, os moradores – crianças e velhos incluídos – são escorraçados.


Abandonado desde 1977, com a transferência do museu para outro bairro, o prédio foi ocupado em 2006 por membros de diversas etnias indígenas, que ali instalaram a Aldeia Maracanã e ali viviam em paz desde então. Sem que nenhuma das autoridades federais, estaduais ou municipais se preocupassem com as dificílimas e precárias condições de vida que enfrentavam em seu dia a dia. Esquecidos. Mas tudo mudou com a perspectiva e o anúncio oficial da realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil em 2014 e das Olimpíadas em 2016, com o estádio do Maracanã figurando como catedral-mor destes eventos. Em 2012, o governador do Rio Sérgio Cabral compra a casa junto ao governo federal. E logo a inclui no perímetro urbanístico conhecido como “entorno do Maracanã”, região a ser reurbanizada para melhor servir aos negócios e negociatas da Copa e das Olimpíadas.


É complexa a trama em desenvolvimento. Mas seja como for, a idéia geral é conceder ao empresariado – leia-se burguesia – todo este privilegiado espaço de ganhos e lucros a ser construído em volta do Maracanã, mesmo que para isso sejam literalmente postos abaixo, destruídos, equipamentos educacionais e esportivos como a escola estadual Friedenrech, o estádio de atletismo Célio de Barros e o conjunto aquático Júlio Delamare, os quais, mesmo que precariamente, constituíam espaços públicos de formação educacional e esportiva.


É por isso, por estes interesses, que os índios precisavam ser desalojados, precisavam sair dali, não poderiam continuar “enfeiando tão bela paisagem”, a ser constituída por um estádio de luxo (ao qual o proletariado certamente não poderá ter acesso, dado o mais que previsível e já anunciado alto preço dos ingressos), shoppings centers sofisticados, área de lazer para endinheirados. Fora, pois, com o proletariado. Pois são da classe proletária estas famílias indígenas expulsas de sua casa pelo agentes do capitalistas. Solidariedade humana? Fraternidade? Compaixão pelos de baixo? Respeito ao proletariado? Não, não. Estas são expressões riscadas do dicionário que os burgueses e os assassinos a seu serviço carregam no bolso.


Desde o governo Lula – e isto sem falar dos assassinatos cometidos pelos agentes do governo Fernando Henrique Cardoso, principalmente no campo – e sob o seu manto percebe-se progredir vertiginosamente o apetite das instituições repressivas dos governos federais, estaduais e municipais sobre o proletariado. Este, de vítima passa a ser acusado de criminoso. É escandalosamente estarrecedora a ameaça proferida desde o Vaticano pela presidente Dilma Rousseff aos atingidos pelas enchentes que vêm assolando o Estado do Rio de Janeiro.


Segundo esta triste senhora, será preciso tomar “medidas drásticas” contra os flagelados que se recusarem a deixar imediatamente suas casas aos primeiros sinais de risco de inundação ou desabamentos. Ao ouvir da boca da presidente, pela televisão, aquela ameaça as pessoas de mínimo bom senso logo pensaram que a ameaça se dirigia aos governantes que, diante das mais de 900 mortes verificadas na região serrana do Estado do Rio em 2010 nas chuvas de março daquele ano, nada fizeram... e nada continuam fazendo. Engano. Dilma Rousseff estava ameaçando mesmo era os trabalhadores, o proletariado, que, ao final das contas, são sempre as vítimas da voracidade criminosa da burguesia, da qual a incúria dos governantes é apenas aspecto e consequência.


E não é outro o caso da Aldeia Maracanã. A barbárie de que foram e tem sido vítimas as populações indígenas no país, desde o capitalismo colonizador até hoje, na fase financeira do capital, guarda os mesmos cortes de crueldade satânica, mesmo que perpetrada à vista de piedosas batinas jesuíticas. Que nos permita uma paráfrase à formulação da histórica revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo, que alertava em texto fundamental que a humanidade se encontrava historicamente diante da opção socialismo ou barbárie: na realidade, já vivemos hoje a dramática realidade do capitalismo e barbárie!


Mas que não se iluda a burguesia. Por baixo de toda a espetacularização, de toda a mercantilização, de toda a alienação, por baixo de toda esta lama, germina a semente da frondosa árvore da liberdade. E aproveitamos aqui para saudar a combatividade com que resistiram os indígenas da Aldeia Maracanã. E enfatizamos como expressão de solidariedade e esperança a atuação daqueles rapazes e moças da esquerda brasileira que se colocaram ao lado dos indígenas expondo-se e a própria vida à selvageria, aí sim, da tropa de choque. Ficam, pois, nosso respeito e admiração por estes companheiros.


Não passarão!

 


 

 




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