Logo

Quem matou os estudantes em Santa Maria?

De lado o abjeto e vampiresco uso feito pelos meios de comunicação da dolorosa morte de 234 jovens na madrugada do domingo passado no incêndio na boate Kiss na cidade de Santa Maria (RS), é mais que justificado o estado de comoção nacional formado em torno da tragédia. A resposta solidária que os povos dos quatro cantos da Terra têm repetidamente dado a este tipo de ocorrência trágica revela o insucesso do grande esforço ideológico dos agentes do capitalismo em remeter a vida humana para a vala comum dos itens secundários e/ou comerciáveis.

É preciso identificar responsáveis. E os há em diferentes níveis, todos embora de natureza grave. Desde os seguranças, que demoraram a perceber a gravidade da situação aos primeiros sinais do fogo – e, por isso, não providenciaram de imediato a abertura das saídas de emergência – até os idealizadores do espectáculo, que imprudentemente deram as costas para experiências anteriores em que o uso de fogos de artifício resultou em desastres que, embora de menores proporções quantitativas, resultaram igualmente em perdas de vidas.

Mas a linha direta da busca dos grandes responsáveis pela morte daquelas mais de duas centenas de jovens aponta na direção dos dois maiores criminosos: o governo e a burguesia, sabendo-se constituir-se o primeiro em não mais que um representante e agente da segunda. No caso, aliás, o incêndio de Santa Maria se inclui em vasta lista internacional de tragédias da mesma natureza – todas elas capitaneadas pela voracidade burguesa de mais e mais lucros aliada ao cruel desprezo estrutural dos governos burgueses pela vida.

É de se enfatizar que nestes tempos áridos de neoliberalismo esta lógica macabra do capitalismo assume formas agudas, e ainda mais agudas quando o sistema entra em crise, como atualmente se encontra. Assim, desgraçadamente, é lícito temer a ocorrência em futuro próximo de tragédias semelhantes. Neste sentido, não constituirá apenas uma figura literária a afirmação de que Santa Maria foi cenário de uma morte anunciada.

Não foi por descuido ou por acaso que a empresa proprietária da boate se “descuidou” dos mais elementares itens de segurança na sua construção e na supervisão geral dos espetáculos que acolhe. O que há de fato é uma estratégia – inclusive estruturada em nível de elaboração ‘científica’ pelos teóricos assalariados das chamadas modernas táticas de administração empresarial – de maximização de lucros em tempos em que estes são visivelmente decrescentes no âmbito geral da economia burguesa. Acrescente-se que o capital se desloca tendencialmente para o ramo de serviços, onde incluem as produções da indústria cultural, em tempos de crise do sistema. E se instala o vale-tudo.

Pode-se falar, então, e sem receio de se incorrer em exageros, em uma ‘lúmpen-burguesia’ em nível mundial. São tão cotidianas quanto mesquinhas as ações desenvolvidas pela indústria, agricultura, comércio e serviços em geral de raspar cada centavo do bolso dos trabalhadores através da astúcia, malandragem, do mal-entendido etc. etc. etc. Em praticamente todos os códigos penais do mundo este tipo de ação delituosa é tipificada como estelionato. Produtos estragados, contas telefônicas fraudulentas, taxas bancárias exorbitantes, propaganda enganosa, cobrança por serviços não prestados. Vale tudo. Mas a lúmpen-burguesia permanece incólume, intocada. Afinal, conta com estados e governos a seu serviço.

De outro lado, o estado – o outro grande assassino de Santa Maria – busca dissimular sua responsabilidade, como as lágrimas de crocodilo despejadas pela presidenta da República do Brasil, a respeitável senhora Dilma Roussef, ao visitar no próprio domingo a cidade. De fato, a se olhar com atenção, governo e estado capitalistas do Brasil atual estão preocupados é em encher os bolsos dos Eikes Batistas da vida, da burguesia, com o dinheiro arrancado aos trabalhadores. Saúde para os trabalhdores? Transporte? Moradia? Lazer? Segurança? Educação? Não, nada disso. O governo não se preocupa nem com a vida nem com a morte dos trabalhadores.

Ao mesmo tempo em que derrama lágrimas, Dilma Roussef prepara e articula uma reforma do sistema previdenciário brasileiro que, em síntese, rouba aos trabalhadores todos os direitos históricamente por eles conquistados a ferro e fogo, à custa de muita luta e muito heroísmo no transcorrer de mais de um século de luta sindical organizada. Afinal de contas, é preciso fazer dinheiro para financiar os negócios burgueses, entre os mais próximos a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Dinheiro para construir estádios monumentais, aos quais o proletariado não terá acesso. É preciso dinamizar os negócios burgueses, inclusive superfaturamento e concorrências fraudulentas na construção daqueles estádios-elefantes-brancos, no conhecido método demolição-construção de ativação da economia, ou seja, de ativação dos lucros capitalistas.

É também por isso que o estado e o governo nâo têm dinheiro, pessoal nem recursos para uma fiscalização de serviços oferecidos às grandes massas urbanas no país. Enchentes que destroem vidas e os parcos bens dos trabalhadores? Culpa da natureza, diz a mídia burguesa. Atrasos e quebras de trens urbanos – privatizados, lembre-se – são consequência da ação de vãndalos e do próprio povo, vociferam os porta-vozes da burguesia nos jornais, rádios e informativos televisivos. Por fim, que se destaque que não se trata meramente de um “descaso” do governo, como quer fazer crer esta mesma mídia. Trata-se de crime intencional, doloso.

Portanto, foram o governo e a burguesia que mataram cada um dos 232 estudantes na madrugada de 27 de janeiro de 2013 na cidade gaúcha de Santa Maria. A história saberá julgá-los. O proletariado saberá lhes fazer a devida justiça.


 

 




© Copyright 2011 - 2012 www.mmarxista5.org