Logo

A pequena burguesia contra-ataca

 

copacabana

Em nossa última postagem neste espaço saudamos com o devido entusiasmo revolucionário a Greve Geral de 28/4 como verdadeiro reingresso do proletariado no cenário das lutas de classes no país. Reingresso que configurou – e continua configurando – a arrancada para uma conjuntura qualitativamente diferenciada da anterior, em que os interesses dos trabalhadores se viam condenados a transitar pelos escorregadios corredores parlamentares da institucionalidade burguesa. Com a greve, o proletariado bradou: estamos aqui! Sua bandeira, a luta aberta e direta contra a exploração capitalista.

Hoje, desgraçadamente, temos algo muito grave a lamentar. Ou melhor, a denunciar. A pequena burguesia entra em campo abertamente disposta a dar um tranco no proletariado e jogá-lo para escanteio. Sua bandeira, o velho trapo sujo com que a burguesia ilude o proletariado através dos séculos: a democracia. É preciso ter sempre, sempre, sempre, claro que a pequena burguesia é uma burguesia pequena, ou seja, um segmento da burguesia que desta não se diferencia a não ser por questões adjetivas. Substantivamente, trata-se de uma mesma classe a viver da exploração sobre o proletariado da mesma forma que os vampiros burgueses.

Domingo último, o aprazível bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, acolheu uma multidão – no sentido rigoroso do termo, que define um grupo humano que não entende concretamente o que está fazendo nem as consequências do seu ato – de aproximadamente 50 mil pessoas para aplaudir músicos, atores e parlamentares a despejarem verborragia em defesa de consignas histórica e mundialmente muitíssimo agradáveis ao paladar burguês: democracia, eleição direta, cidadania etc., numa nauseante ladainha (o termo é de Marx, referindo-se ao rosário das reivindicações burguesas e pequeno-burguesas) plena de lamúrias e falsos sentimentos de ultraje.

Patético. E o mais patético ainda é que não se sabe quem levou quem às areias famosas de Copacabana: se a esquerda mobilizou a pequena burguesia, ou se a pequena burguesia levou a esquerda. E nunca se saberá, já que se trata de uma relação dialética de interdeterminação. Estruturalmente, o reformismo é expressão política da pequena burguesia. O fato é que lá se encontraram várias organizações de esquerda – algumas que até se dizem marxistas! – balançando bandeiras e gritando vivas à democracia e a seu método mais eficaz de dominação ideológica: eleições diretas.

Concretamente: o que marca a atual conjuntura, do lado da burguesia, é uma crise de dominação que se expressa pelo esfacelamento dos poderes Executivo e Legislativo, com uma progressiva desmoralização do Judiciário. A burguesia busca desesperadamente uma saída. E aí vem a cavalaria salvadora da pequena burguesia e oferece a cabeça do proletariado na bandeja de prata das eleições diretas. Simples assim. Claro assim. Só não vê quem vive nas trevas do reformismo clássico (PCdoB, PSOL e assemelhados), do neorreformismo gramsciano (PCB e vizinhanças) e do trotsquismo voluntarista-oportunista (PSTU, MAIS e proximidades).

Mais grave e determinante: no exato momento em que à crise de dominação burguesa se assistem, do outro lado da contradição, aos primeiros passos e iniciativas de retomada do movimento próprio do proletariado através da luta contra as reformas neoliberais de aprofundamento da exploração, neste exato momento, a pequena burguesia busca secundarizar esta luta proletária e, oportunisticamente, opera em favor da aspiração burguesa-pequeno-burguesa das eleições diretas.

É esta a questão central de que os marxistas devemos nos ocupar na presente conjuntura. Temos que opor a mais dura resistência a tal intento de secundarizar a luta proletária em favor da luta burguesa institucional, hoje concretizada na bandeira das diretas-já. O resultado de tal arapuca histórica será a inevitável perda de um impulso que, se concretizado em avanço, colocaria a luta de classes no país em outro nível, em nível superior. Que poderia alçar o proletariado à condição de sujeito.

Mas não, tripudiam os ególatras pequeno-burgueses. Há mais de 150 anos Marx alertara que a pequena burguesia não tem a menor intenção de mudar qualitativamente a ordem social –, quer apenas tornar a vida mais fácil para si mesma. Para poder viajar tranquilamente para o exterior, para poder continuar morando nas proximidades das areias finas de Copacabana, para entupir os shoppings, para comprar carros do ano. Enfim, para viver a sua vida medíocre. A pequena burguesia não sabe – aliás, a pequena burguesia não sabe nada –, mas no fundo sente que quanto mais recursos forem carreados para minorar os sofrimentos do proletariado, menos recursos seriam dirigidos aos seus bolsos para custear seus privilégios. Por isso, a pequena burguesia não prioriza a luta contra as assassinas reformas trabalhista e da previdência. Simples assim.

Se este raciocínio se mostra inacessível a mentes contaminadas pelo individualismo pequeno-burguês, custará pouco dar uma olhada, mesmo que de passagem, na história recente do país. Não foi acenando com as bandeiras da democracia (com destaque para as diretas-já) que a burguesia e a pequena burguesia envolveram ideologicamente o proletariado no início da década de 1980, sepultando assim um então renascido, más já vigoroso, movimento independente do proletariado? Respondam, senhores democratas: o que o proletariado ganhou com tudo aquilo?

Se os atuais novos coveiros do movimento dos trabalhadores têm alguma vergonha de responder, respondemos aqui: mais fome, mais exploração, mais miséria, mais morte.

Na realidade a batalha hoje no campo da esquerda e dos trabalhadores é travada concretamente entre duas linhas de ação: a opção pequeno-burguesa das diretas-já x luta proletária contra as reformas.

À luta, pois.

Venceremos!


 

 




© Copyright 2011 - 2012 www.mmarxista5.org