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Venezuela: Revolução ou barbárie!

 

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É de conhecimento e uso por revolucionários desde há muito a expressão cunhada por Rosa Luxemburgo “Socialismo ou Barbárie” para dar conta da inevitabilidade de uma destas duas opções históricas a partir do modo de produção capitalista. Como formulada, trata-se de um alerta e um chamamento aos revolucionários contra as ilusões conservadoras de que o sistema de escravidão assalariada poderia ser mantido eternamente sem que a sociabilidade humana descambasse para um retorno à selvageria. Tais ilusões, contudo, têm sido categoricamente desmentidas pela incontestável realidade de todas – literalmente todas – as sociedades capitalistas da face da Terra. Estados Unidos, Inglaterra, Filipinas, Peru, Turquia, Brasil etc. etc. etc. Todos os países capitalistas do mundo confirmam a progressiva anomia que toma conta do capitalismo.

Desgraçadamente, o imperialismo conseguiu derrotar a maioria dos países cujo proletariado conseguira implantar o socialismo em suas fronteiras. Na linha de frente da resistência, China, Cuba e Vietnam lograram heroicamente impedir a reinstalação do capitalismo em suas terras. De outro lado, mesmo com a intensificação atual das lutas de classes em nível mundial em presença do aprofundamento da crise global do imperialismo e com a crescente brutalidade do capitalismo na linha de um verdadeiro genocídio mundial, mesmo assim, são poucos os países em que o proletariado consegue hoje opor uma luta pelo socialismo como confrontação política e histórica ao avanço da barbárie capitalista. Na realidade e rigorosamente, podemos constatar apenas um país em que o proletariado coloca a luta pelo socialismo na ordem do dia: Venezuela!

Com um proletariado portador de uma bagagem de lutas altamente significativa no cenário latino-americano, a Venezuela – exatamente como concretização de tal herança – fez-se capaz de produzir um líder de estatura gigantesca, Hugo Rafael Chávez Frías, que conseguiu catalisar todo o potencial revolucionário da história remota e recente das lutas de classes do seu país, direcionando todo este potencial à estruturação de um movimento de inusitada força revolucionária na América Latina – o bolivarianismo. Personificado na figura imortal de Chávez, seu idealizador, criador e organizador.

Em si, como já o fizemos aqui, o bolivarianismo pode e deve ser conceituado na teoria revolucionária marxista como um sistema socialdemocrata radicalizado. Possuidora da maior reserva petrolífera do mundo, a Venezuela chavista ancora toda uma estratégia econômica fundada na política distributivista de reversão da exploração do petróleo em benefício do proletariado, isto em presença de uma formação social em que a pequena burguesia é economicamente insignificante. É neste quadro que um redirecionamento da renda petrolífera ao benefício do proletariado foge ao modelo tradicional socialdemocrata, desde que não baseado na formação de um mercado fundamentalmente assentado sobre uma pequena burguesia e que ao proletariado é destinado um papel de mercado secundário e auxiliar. Esta é a questão central. Uma questão que os trotskistas jamais entenderão – já que não entendem nada.

Choque inevitável no horizonte

É em presença deste pano de fundo estratégico que deve ser entendida e analisada a última eleição presidencial, de 20 de maio passado, que reconduziu Nicolás Maduro Moro à presidência da República. Com o proletariado dura e cruelmente atingido por uma guerra econômica sem quartel, desencadeada pela burguesia local e internacional desde o primeiro dia do primeiro mandato de Chávez, em 1999, mesmo assim, Maduro impôs uma absolutamente incontestável vitória sobre o candidato da direita, Henry Falcón, com mais de 6.200.000 votos contra algo como 1.900.000 de Falcón. O candidato pequeno-burguês, Quijada, e um candidato evangélico obtiveram não mais que uma votação ridícula.

Mas o destaque maior da eleição é que a mesma foi realizada sob uma fortíssima intensificação da guerra econômica da burguesia nos dias que antecederam o pleito, com o aprofundamento das conhecidas práticas criminosas de sabotagem: formação de estoques especulativos, contrabando de mercadorias e dinheiro vivo para a Colômbia, cancelamento da entrega de bens de produção e mercadorias contratadas no exterior – inclusive medicamentos –, congelamento de recursos em dólares do governo venezuelano depositado no exterior para compra destes bens e mercadorias. Enfim, todo tipo de pirataria de que é capaz o imperialismo. A fome e a doença, então, bateram às portas dos lares proletários. Mas a burguesia não conseguiu destruir a herança viva de Chávez nos corações e mentes dos proletários venezuelanos. Há quem diga, e não sem razão, que quem esmagou as pretensões eleitorais da burguesia não foi rigorosamente Maduro, mas sim Hugo Chávez.

Como era de se esperar a derrota não acalmou os ânimos belicistas dos imperialistas locais e internacionais. Além das repetidas e já cansativas alegações de fraudes, de ilegitimidade da eleição, de repetidos ataques terroristas a instalações elétricas e de fornecimento de água etc., o império não perdeu tempo. O psicopata Donald Trump já saiu no dia seguinte ao anúncio do resultado a fazer ameaças de intervenção militar direta, agora exibindo a carta de adesão do regime fascista da Colômbia, seu lacaio, à OTAN. A União Europeia e a Organização dos Estados Americanos, oficinas de vassalagem do imperialismo, igualmente se apressaram a fazer ameaças e chantagens.

O que é preciso ter sempre claro como ponto de partida de qualquer análise é: pode o imperialismo tolerar um regime de socialdemocracia radicalizada na Venezuela? A resposta só pode ser um contundente e peremptório não. Por razões econômicas e geopolíticas. O capitalismo passa por uma crise cíclica mundial aguda e ainda mais aguçada pelo fato de o centro imperialista de maior peso, o bloco EUA-União Europeia, não haver conseguido colocar sob suas asas todo o conjunto de países integrantes da ex-União Soviética. Além disso, Rússia e China emergem unidos em um só bloco ávido por conquistar espaços econômicos e políticos. Assim, não resta alternativa aos Estados Unidos senão a de trazer de volta o lema da chamada Doutrina Monroe: “América para os americanos” (americanos do norte, entenda-se), ou seja, de transformar a política de dominação econômica e diplomática implantada no pós II Guerra em uma versão atualizada da política de “quintal traseiro”, de dominação político-militar.

Bem, o proletariado venezuelano não quer isso, não vai tolerar isso. “Se eles conseguirem entrar, não vão conseguir sair” – ouve-se em cada esquina dos bairros proletários de Caracas e dos principais centros urbanos do país. A hipótese da confrontação militar ganha materialidade a cada dia. Não há como se esquivar à mesma. Do outro lado, o proletariado venezuelano ostenta níveis de organização e consciência revolucionárias que fazem da conquista do poder direto e do erguimento de um estado proletário uma meta atual neste quadro de conjuntura revolucionária que vive o país. Como então, concretamente, enfrentar a iminência de um golpe de estado fascista? A resposta só pode ser uma: na linha estratégica- tática da instalação de um poder direto de trabalhadores no interior do próprio confronto atual.

O contrário desta linha só pode resultar em derrota. Em esmagamento do bolivarianismo. Um regime fascista selvagem. Decididamente, não é momento para conciliação, não é momento para se estender mão à burguesia, não é momento de diálogo com a burguesia. É momento, sim, de juntar forças revolucionárias a forças potencialmente revolucionárias. Forças políticas e militares concretamente existentes na cena venezuelana. É momento de uma unificação política entre o proletariado e segmentos radicalizados da pequena-burguesia. É momento de fazer desaparecer no seio da luta libertadora revolucionária político-militar qualquer traço de messianismo político, de preconceito infantil, de autoproclamação revolucionária, e partir para a criação de uma Frente de Unificação Revolucionária capaz de erguer a bandeira vermelha da Revolução Proletária na Venezuela.

Venceremos!

 

 

 


 

 




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