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Em frente, Venezuela!

 

A instalação da Assembleia Nacional Constituinte da Venezuela na sexta-feira passada 04 de Agosto de 2017 alça a luta de classes naquele país ao patamar mais elevado de uma situação revolucionária. Renasce depois de muitos e muitos anos o brilho da estrela proletária não apenas na Venezuela, mas também em toda nossa América Latina. Surge um novo tempo. No horizonte, a luz fulgurante do sol da revolução dos trabalhadores.

A conjuntura revolucionaria que se abre traz a marca decisiva de um nível de radicalização das lutas que se concretiza claramente em uma polarização qualitativa em que as forças sociais fundamentais das sociedades capitalistas, burguesia e proletariado, se postam no ringue da história para uma luta de vida ou morte. Uma luta da qual restará de pé apenas um dos contendores. Uma luta entre socialismo e barbárie.


São seguramente mais cruentos alguns dos combates atualmente travados contra e pelos trabalhados no cenário mundial, despontando como exemplo maior o morticínio levado a efeito pelo imperialismo na Síria. Nenhum deles, no entanto, assume a dimensão de uma luta aberta entre socialismo e capitalismo como o que se desenvolve agora na Venezuela. Esta é a questão central. Rigorosamente, podemos falar que o último embate desta natureza ocorrido na América Latina foi a Revolução Cubana. Tivemos, é verdade, lutas extremamente radicalizadas no Brasil em 1964, no Peru de Alvarado de 1968, no Cordobazo argentino de 1969, na Bolívia de Torres em 1972 e, significativamente, no Caracazo venezuelano de 1989. Mas em nenhuma destas gloriosas e heroicas batalhas travadas pelos trabalhadores a revolução socialista surgira no horizonte como possibilidade concreta. Como na Venezuela bolivariana de hoje.


Em síntese: o socialismo está firmemente instalado nos corações e mentes dos proletários venezuelanos. E que no interior deste proletariado se inclua a Força Armada Nacional Bolivariana, formada por cinco segmentos: os tradicionais Exército, Marinha e Aeronáutica acrescidos da Guarda Nacional Bolivariana e da Brigadas Bolivarianas, estas compostas por civis devidamente treinados e equipados pelo Exército. No total, cerca de 500 mil homens – e também mulheres – em armas. Armas novas, diga-se, sofisticadas e equipadas com a mais alta tecnologia disponível. Enfim, se a burguesia decidir partir para o confronto militar direto, que não vá pensar em tomar doce da mão de criança. Não se equivoquem, como costumava alertar o Comandante Hugo Chávez, o gênio político que arquitetou e montou todo o movimento bolivariano – que agora se coloca a postos para o grande salto revolucionário em direção à criação de um estado de trabalhadores, só de trabalhadores. E de uma economia socialista, de uma educação socialista, de uma sociedade socialista, enfim, direcionada à superação das classes sociais, da diferença social entre os homens. De uma sociedade em que não haja nem exploradores nem explorados, uma sociedade de homens e mulheres iguais – como afirmou o constituinte Fernando Soto Rojas ao abrir o evento de instalação da Assembleia Nacional Constituinte sexta-feira passada.


A todos aqueles verdadeiramente dedicados à libertação do proletariado, nos quatro cantos mundo, cabe o apoio decisivo e incondicional à Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Omitir em este apoio ativo – como o fazem reformistas e gramscianos –, repetindo a rasteira argumentação de burgueses e imperialistas de que a ANC não é democrática, expressa não mais que o velho e conhecidíssimo vício pequeno-burguês da vacilação oportunista. Esperar pra ver no que vai dar para, no final, se acomodar junto aos vencedores. A estes oportunistas, os marxistas só podemos alertar: decidam agora de que lado estão ou se calem para sempre. Seu apoio meia-boca só faz o jogo da burguesia. Os muitos entre gramscianos e reformistas tradicionais que se declaram abertamente contra a ANC só podemos declará-los, e tratá-los como tais, inimigos do proletariado.


Os trotsquistas, em sua quase absoluta totalidade, que desde sempre se posicionaram furiosamente contra o bolivarianismo e o chavismo, se voltam agora com a mesma e costumeira fúria contra a ANC venezuelana. Algumas das correntes trotsquistas chegam a declarar pomposamente, com pose de proprietárias da revolução proletária mundial, que o bolivarianismo é bonapartista, fascista portanto. Isso seguramente em razão primeira do doentio messianismo essencial aos trotsquismos, do próprio Trotsky a um certo José Posadas e seus discos voadores. O fato é que o trotsquismo – morenistas, lambertistas e mandelistas, entre os principais – jamais consideram legítimo, revolucionário, qualquer movimento, onde quer que exista, que não seja dirigido por eles. Trotsquistas, reformistas clássicos e gramscianos portam visceralmente, por princípio de método e programático, um desprezo irrecuperável ao conceito marxista-leninista de conjuntura, o que os faz simplesmente desconhecer a concretude das lutas de classes. Gramsci, por achar que o mundo vive tempos finais de extinção gradual do capitalismo, que teria chegado ao apocalipse da contradição antagônica viva entre os meios de produção e as forças produtivas. Uma deturpação grosseira, banal e mecanicista da principal tese da Introdução da Crítica da Economia Política, de Marx. Os trotsquistas, por seu lado, rezam fielmente o catecismo Programa de Transição, escrito por Trotsky em 1938, segundo o qual o capitalismo teria ingressado desde então em uma fase de crise estrutural impeditiva da reprodutibilidade do próprio sistema. Uma deturpação grosseira, banal e mecanicista da teoria marxista das crises capitalistas exposta e desenvolvida por Marx em O Capital.


Assim, de braços e corações dados, trotsquistas e reformistas-gramscianos são incapazes de ver a realidade concreta. Não conseguem ver o bolivarianismo. O bolivarianismo, sabe-se, tem suas origens mais recentes no Movimento Revolucionário Bolivariano-200 (MBR-200), criado com base principal no interior do Exército venezuelano pelo então Tenente Hugo Rafael Chávez Frias em 1982. O MBR-200, por sua vez, tem sua origem mais próxima no EBR-200 (Exército Bolivariano-200), criado em 1977 adotando em sua sigla uma referência aos duzentos anos de nascimento de Simon Bolívar. Em 1997, Hugo Chávez cria o MVR (Movimento Quinta República), pelo qual é eleito presidente da República em 1999. Em 2007, Chávez funda o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), ampliando as bases sociais do movimento bolivariano.


De maneira geral é possível definir o bolivarianismo como um movimento de raízes nacionalistas, na atualidade uma socialdemocracia radicalizada. Mas é decisivo enfatizar as profundas raízes do bolivarianismo na formação social venezuelana tal como esta se constituiu. A liderança de Simon Bolívar nas lutas de independência do país frente ao império espanhol implicou diferenças importantes em relação aos demais países em que se desenvolveram lutas semelhantes. Bolívar, tanto na formação de seus exércitos como na configuração de seus programas, incorporou bases proletárias (escravos e indígenas), o que deu um caráter social à sua luta para além dos acordos palacianos das velhas oligarquias que ‘libertaram’ as Américas. Na realidade, seu sonho de uma América unida e justa, na linha de uma socialdemocracia adaptada ao tempo, não frutificou. O projeto de Bolívar acabou derrotado, como o foram os projetos semelhantes liderados por José Maria Morelos no México e por José Gaspar Rodríguez de Francia no Paraguai. Assim como não frutificou materialmente – mas deixou marcas ideológicas no exército venezuelano – o movimento de libertação nacional conduzido pelo general Ezequiel Zamora ainda na primeira metade do século XIX.


Evidentemente não se pode supor que o bolivarianismo seja marxista. Mas, de outro lado, não se trata de alguma especulação cerebrina de quem quer que seja. O que fez a genialidade política de Chávez – um revolucionário à altura de um Lênin, não hesitamos em afirmá-lo – foi incorporar toda esta herança histórica em um movimento e adicionar toda a rebeldia proletária presente na insurreição proletária de fevereiro de 1989 conhecida como Caracazo. Que não se esqueçam, claro, como fator igualmente determinante da natureza do bolivarianismo, as duras lutas de classes que marcam a história venezuelana, inclusive um poderoso movimento guerrilheiro que mobilizou o país na década de 1960 e cuja ideologia de combate também hoje se faz presente.


O bolivarianismo, pois, desempenha um papel concreto e insubstituível de radicalizar as lutas de classes na linha da revolução socialista proletária na Venezuela – e na América Latina, acrescente-se. A história recente já o provou. E a instalação da Assembleia Nacional Constituinte, proletária e bolivariana, o comprova.


Como diria Castro Alves, o poeta dos escravos, a Constituinte coloca a Revolução Bolivariana em um patamar histórico em que não pode parar. Voltar é morte. Só lhe resta marchar.

Venceremos!


 

 




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