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Trump e a revolução proletária

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A verdadeira histeria que tomou conta da maioria, da grande maioria, da esquerda brasileira com a notícia de que o fascistoide Donald Trump vencera a eleição presidencial dos Estados Unidos traz à tona o já muitas vezes exibido retumbante atraso desta maioria da esquerda do nosso país. Um atraso frente aos múltiplos aspectos das tarefas históricas que temos a cumprir no interior do objetivo geral de uma revolução socialista, proletária, no Brasil e no mundo. O que aflorou agora foi um deslumbramento infantil pela democracia à beira da imbecilidade absoluta. Sim, democracia sem os enganosos adjetivos que os cultivadores dos tais ‘valores universais’ apõem ao termo: ‘popular’, ‘aprofundada’, ‘protagônica’ e absurdos semelhantes. Além disso, é preciso anotar que até agora não tinha ficado tão perceptível um primarismo tão rasteiro, uma superficialidade tão desprezível e um nível tão infantil como demonstrado na reação de pânico com que reagiu aquela maioria da esquerda diante da vitória de Trump.


É fato que aos marxistas de há muito é conhecida a verdadeira ojeriza que os reformistas, neorreformistas gramscianos e trotsquistas – aquela maioria da esquerda a que nos referimos acima – têm em relação ao método materialista dialético de análise e de embasamento da prática política. Materialidade, é fato, absolutamente incompatível com o messianismo pequeno-burguês-idealista que orienta seus programas, estratégias e táticas.

O que significa na realidade a vitória de Trump e quais as suas consequências gerais?

Antes mesmo de buscar analisar a figura de Donald Trump, é preciso considerar a referência material do espaço sócio-econômico, político e histórico em que sua vitória ocorre. E aqui o dado fundamental é a crise profunda por que passa o imperialismo e, obviamente, o país-formação social que capitaneia o sistema. Dados: 1. Segundo pesquisas qualificadas, já disponíveis nos poucos meios de comunicação sérios (sites Opera Mundi, Voltaire, Aporrea, Rebelión e poucos outros), o desemprego nos Estados Unidos se encontra em torno dos 20%. 2. O processo de desindustrialização nos EUA mostra-se irrecuperável, com o surgimento inclusive do que está sendo chamado de “zonas de ferrugem”, como os centros industriais de Chicago, Detroit e Filadélfia. 3. O Tesouro norte-americano está falido. Resultado amplo de políticas de isenção fiscal neoliberal, de Ronald Reagan a Barack Obama (passando por Clinton e pelos Bush), o estado norte-americano não tem mais como financiar os projetos burgueses, não tem mais como se endividar sem provocar uma inflação de tal modo brutal que inviabilizaria o sistema. Isso, sem falar das toneladas de dólares doadas ao sistema financeiro para salvá-lo das águas tormentosas da crise que estourou em 2008. 4. A emergência da Rússia e da China como potências mundiais rivais já no início dos anos 2000, jogando por terra a tal unipolarização que pretendia fazer dos Estados Unidos da América do Norte a única potência mundial, a Roma dos tempos (pós)modernos. 5. O fracasso da política de intervencionismo aberto, de face neocolonial, instalado por Bush pai e potencializado pela senhora nazista Hillary Clinton, cujos resultados concretos e mais visíveis são a derrota da Irmandade Muçulmana no Egito, a anomia instalada na Líbia, a derrota para a Rússia na Crimeia/Ucrânia e, o mais divulgado, o novo ‘Vietnam’ na Síria.

É neste quadro – que comportaria ainda outros elementos importantes – que ocorre a vitória de Trump. Uma vitória que não mais que reflete os anseios e medos de: a) uma classe média que viu seu poder de consumo baixar significativamente no período Obama. b) um proletariado urbano – principalmente fabril – que se viu empobrecer e perder empregos no governo do democrata Barack Obama, na exata linha contrária do enriquecimento da grande finança e dos magnatas da chamada ‘indústria’ dos serviços (entretenimento, informática, turismo, esporte, prostituição, drogas etc.).

É, pois, neste oceano de densas incertezas que navega a nau trumpeana. A pergunta que se impõe, portanto – para muitíssimo além de choradeiras e pânicos pequeno-burgueses – é o significado de tudo isso para a nossa prática revolucionária, proletária.

Limpando o terreno: a vitória de Trump é resultado do desespero da maioria dos estadunidenses diante da crise. Desespero de náufrago que se apega a qualquer galho podre que passe por perto. Desespero de quem, desenganado pelo médico, procura uma solução milagrosa em curandeiros. Isso, Trump é um desses curandeiros, que soube jogar com toda uma (in)cultura de uma formação social essencialmente racista, homofóbica, chovinista, belicista, hedonista, misógina. Nunca nos esqueçamos de que a própria lógica de funcionamento e reprodutibilidade do capitalismo – essencialmente individualista do ponto de vista ideológico – estimula e sustenta todas estas psicopatologias sociais.

A presidência Trump será ruim para a revolução proletária latino-americana e mundial? Claro, como o foram as vitórias de Reagan e dos Bush. Mas o que é igualmente claro e muito mais nos interessa é que uma vitória de Hillary Clinton seria ainda pior que a de Trump. (Observação: se nos Estados Unidos, nossa posição seria pelo voto nulo, direcionando todo o nosso trabalho de agitação, propaganda e organização revolucionárias para as bases mobilizadas pela pré-candidatura Bernie Sanders.)

Como argumentamos acima, o imperialismo passa por uma já histórica crise econômica, política e mundial. Capitão de todo o sistema, os Estados Unidos vivem a mesma crise, consideradas suas particularidades como formação social. Neste quadro, Hillary teria pela frente a tarefa para cujo cumprimento lhe credenciara seu passado político, como a Secretária de Estado genocida que foi, e a lógica da reinserção hegemônica de sua ‘pátria’ no sistema mundial. O que significaria uma política neoexpansionista de guerras e massacres mundo afora. Inclusive na América Latina. Trump, por sua vez, certamente buscará responder às necessidades internas próprias de uma formação social chamada Estados Unidos da América do Norte. Como um elefante em loja de louças (mesmo com maioria na Câmara e no Senado), o que se pode esperar deste bobo da corte que ganhou o palácio é uma política de sucessivos remendos inconsequentes. A não ser que queira comprar uma guerra civil com a pequena burguesia de seu país, Trump não vai – seguramente não vai – tentar institucionalizar sua ideologia racista e misógina. Esta é a questão, a institucionalização da psicopatologia à moda hitleriana, como na era pré-Martin Luther King Jr. Dispersa, não institucionalizada, com ou sem Trump tal ideologia fascista sempre progredirá nos Estados Unidos enquanto os Estados Unidos forem capitalistas. Simples assim.

Evidentemente não se pode compartilhar da expectativa do presidente bolivariano do Equador, Rafael Correa, de que Trump seria “melhor” para a revolução proletária na América Latina que Hillary. Pode-se dizer, isso sim, que Trump será menos ruim que Hillary, dado que ele terá que desenvolver necessariamente uma política não intervencionista – não hipoteticamente para ser coerente com suas propostas, que isso de coerência jamais passou nem passará por sua pequena cabeça – para assegurar sua própria governabilidade.

Em síntese, dois inimigos do proletariado. Hoje, um pior que o outro.


Venceremos !


 

 




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