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O capitalismo em tempos de barbárie

refugiados

 

Barbárie. Esta é a real situação vivida atualmente pela classe trabalhadora, submetida às condições de guerra e a todas as formas de violência no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque, na Síria e em praticamente todo o Oriente Médio e grande parte da África. Sob constantes ameaças, milhões de pessoas se deslocam rumo à Europa em busca de alguma chance de sobrevivência. Já passa de 60 milhões o número de refugiados nessas condições em função das guerras e perseguições de todos os tipos.

Diante deste quadro os conflitos armados na Síria se impõem como um dos principais detonadores da onda de refugiados que, desesperadamente, se lança por mar ou por terra na expectativa de permanecerem vivos. É assim que há quatro anos a população síria lida com os impactos da guerra em seu país. Entidades internacionais já contabilizam números que alcançam a casa dos 240 mil mortos somente na Síria dos quais cerca de 71 mil são civis. Entre estes, cerca de 12 mil crianças já foram exterminadas pela fúria inerente às relações de produção capitalista que, na busca incessante da manutenção e ampliação de poder político e econômico, dizima e mata.


Fato é que, apenas no primeiro semestre de 2015 cerca de 500 mil pessoas foram expurgadas da Síria rumo ao Mar Mediterrâneo, em embarcações sem a mínima segurança, fugindo das zonas de guerra. Trata-se de uma conjuntura de guerra aberta sobre a população da Síria, a qual fica escondida sob a máscara de ‘conflito civil’ e/ou ‘levante popular’. Ou seja, mais uma vez o imperialismo capitalista serve-se da guerra como uma de suas principais ferramentas, na tentativa de remediar a crise na qual está mergulhado. Ainda que para isso avance impiedosamente com seu poder demolidor, colocando em prática seu histórico mecanismo de destruição, aniquilando grandes quantidades de forças produtivas já desenvolvidas. Para tanto precisa combinar a lógica do genocídio de milhares e milhares de trabalhadores, com a conquista de novos mercados e a intensificação da exploração de mercados já estabelecidos e rentáveis.


Nesta conjuntura, desde 2011, milhares de homens, mulheres e crianças sírias vivem os desdobramentos daquela que ficou conhecida como ‘Primavera Árabe’ a qual teve como expressão imediata a insurgência de segmentos da população – vanguardeados por mercenários e criminosos comuns assalariados e armados principalmente pelos Estados Unidos – de países como Tunísia, Líbia, Egito, Iêmen, além da Síria contra seus governos, todos eles tachados pelo imperialismo de ‘ditatoriais’. É neste quadro que os denominados ‘países civilizados’, do centro do capitalismo, com destaque para os EUA, alegam ter a missão de levar a estes povos a paz e a democracia – via ‘intervenção humanitária’ – para salvá-los do que o imperialismo classifica como os “horrores do comunismo”.


Subproduto da ‘Primavera Árabe’, como no caso da Síria, por exemplo, assistiu-se o surgimento do Estado Islâmico (EI), hoje apontado como o principal responsável pela fuga de milhões de trabalhadoras que tentam ultrapassar os novos bloqueios, levantados sob várias formas e direções. A exemplo da Hungria, que ergueu uma cerca de arame farpado ao longo dos seus 175 Km de fronteira com a Sérvia, lançando mão de sua força policial para bloquear a passagem de refugiados que têm por objetivo chegar ao norte da Europa. Neste episódio, demonstrando sua perfeita condição de cães adestrados pelo e para os interesses do estado, a polícia húngara lançou gás lacrimogêneo, desferiu golpes a cassetetes e, como se não bastasse, espancou pais e mães que tinham seus filhos nos braços na tentativa desesperada de furar aquela barreira.  Medo, dor, pânico, ódio e indignação. Todos esses sentimentos pareciam brotar nos rostos daqueles homens, mulheres e crianças ao serem humilhados e banidos como animais. A expressão da revolta é chamada à cena quando a classe trabalhadora passa a sentir na própria pele o peso da arrogância inerente aos interesses mais imediatos da burguesia!


Interesses imperialistas

Sem perder de vista o caráter verdadeiramente genocida contido nas práticas políticas e fundamentalistas do EI, massivamente veiculado pelas mídias burguesas de todo o mundo, é preciso trazer à tona aquilo que não se fala. Por exemplo, que os ataques à Síria têm como um de seus grandes motivadores os interesses da política de expansão imperialista, esta última diretamente ligada à conjuntura de aprofundamento da crise mundial. Note-se que, colocados em cheque frente à agudização de mais uma crise do capital, a qual ganha força desde 2008, os interesses capitalistas precisam criar mecanismos para minimizar os efeitos da incontestável queda tendencial da taxa de lucro, ameaça constante imposta aos grandes monopólios.


Assim sendo, não podemos perder a materialidade na qual se levanta a chamada ‘Primavera Árabe’, criando as condições para uma reestruturação pós-moderna dos estados ao norte da África e do Oriente Médio, via flexibilização de suas políticas e economias dentro do jogo de forças internacionais. Os conflitos internos promovidos nesses países facilitam a queda de bloqueios políticos, econômicos e ideológicos (denominados no seu conjunto, pelos EUA e aliados, de ‘estados ditatoriais e totalitários’). Bloqueios que foram erguidos historicamente contra ataques e invasões perpetrados por países centrais do imperialismo, representados pela OTAN. O mesmo imperialismo sedento por abrir caminhos à expansão de novos mercados, estes favoráveis ao surgimento de novas fontes de expropriação de mais-valia. Ainda que para a efetivação desse projeto as populações tenham que pagar com suas próprias vidas.


A fome, a agonia, o desespero, enfim, as condições de extermínio que se abatem sobre esses países reproduzem fatos que têm chocado o mundo por sua crueza. Ao mesmo tempo nos impõe a tarefa de tomarmos posição frente às contradições produzidas pela própria história. Sendo assim, ou assistiremos silenciosos à ampliação das condições de barbárie sob as quais a humanidade já está submetida, ou tomamos a história nas mãos na perspectiva única de construir as condições materiais para a emancipação da humanidade, vale dizer, a construção do socialismo.


A crueza apontada acima se expressa, por exemplo, no fatídico dia 27 de agosto, quando os jornais de todo o mundo deram destaque a um fato, em meio a tantas outras tragédias anunciadas que envolvem a vida de milhões de refugiados. O ocorrido foi na Áustria, onde a morte por asfixia de 71 refugiados em um caminhão denuncia o desespero dessas pessoas ao entrarem numa verdadeira roleta russa. Desta forma arriscaram as últimas gotas daquilo que ainda lhes restava, ou seja, as últimas gotas de vida. Foi assim que essas pessoas foram brutalmente eliminadas na câmara frigorifica de um caminhão, amontoados uns sobre os outros em busca de alguma esperança. Compondo a sequência de terror, no dia 2 de setembro a própria mídia burguesa passou a veicular a morte de 12 refugiados originários da Síria, escolhendo com símbolo de mais uma tragédia anunciada as imagens do corpo de um menino. Aylan Kurdi, de apenas três anos, foi encontrado morto numa praia na Turquia, quando sua família, junto a tantas outras, tentava chegar à ilha grega de Kos. Imagens e mais imagens que ao mesmo tempo que falam por si mesmas, têm a função de não explicitar a realidade tal como é, de fato, na sua concreticidade.


Principal destino de milhares de refugiados que chegam ao continente, a Alemanha se prestou a receber cerca de 500 mil deles nos próximos anos. Tal aspecto, para além de atender aos pedidos de entrada por parte dos refugiados, também pode propiciar algumas vantagens concretas mediante a atual conjuntura de crise. Para além da ‘ação humanitária’, cabe lembrar que a Alemanha tem uma população idosa em ascensão quando comparada à parcela mais jovem e capaz de produzir riqueza a ser expropriada pelo capital. Perspectivas apontam que a população alemã tende a sofrer uma redução que varia dos 81,3 milhões, segundo dados de 2013, para 70,8 milhões em 2060. Em outras palavras esse quadro que, ao mesmo tempo importa as contradições resultantes do colonialismo europeu sobre os países da África e Oriente Médio, também leva a Alemanha a contabilizar os futuros benefícios provenientes do desespero de milhares de refugiados que chegam ao país. Desespero que significa uma saída para alguns países europeus, apontado como meio de ampliação do exército de reserva e o consequente aprofundamento da exploração da classe trabalhadora em momento de avanço da crise.


Como principal peça deste dramático quebra-cabeças encontramos a necessidade permanente de expansão e de ampliação de lucros do capitalismo, configurada historicamente na intervenção dos países imperialistas contra a classe trabalhadora e os países que denunciam seus crimes e ataques de todos os tipos. Crimes e ataques que, inclusive, têm sido historicamente responsáveis por estimular as condições para que conflitos internos, como os que a Síria está vivendo, se reproduzam e se perpetuem.


No entanto, mesmo antes da falsa justificativa de combater o EI, os EUA e alguns de seus aliados financiam e armam os chamados ‘grupos rebeldes’. Tal aliança objetiva unicamente a derrubada do governo Assad através destes grupos liderados por mercenários armados e agentes imperialistas, todos eles bem pagos pelo Pentágono. Whashington, portanto, insiste em chamá-los de ‘grupos de oposição moderada’, em prol da ‘democracia’, contra a ‘ditadura’, tentando assim justificar o suporte bélico, de infraestrutura e de logística e financeira a um dos maiores morticínios no pós-II Guerra.


Aliada de Bashar al-Assad, a Rússia iniciou, em fins de setembro, ataques certeiros às bases do EI na Síria os quais, segundo informações oficiais do governo sírio, já conseguiram desestabilizar o seu poderio. Ao contrário das denúncias feitas pelos EUA e aliados, entre eles Turquia e Arábia Saudita, a Rússia não causou baixas civis. Assim, além deixar o EI vulnerável, a Rússia se mantém firme ao lado de Assad. Tal quadro abre a possibilidade real da transformação do conflito no Oriente Médio em uma guerra prolongada entre dois grandes blocos capitalistas – o tradicional bloco Estados Unidos-Europa e, do outro lado, o bloco em formação Rússia-China. O que apenas vai configurar o modo de ser do estágio atual, imperialista, do capitalismo: a guerra. Na qual, a burguesia sempre tem a ganhar e o proletariado só tem a perder.

 

Abaixo a guerra imperialista!

Viva a Revolução Proletária!

 


 

 




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