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Governo da Venezuela esmaga novo plano de golpe militar

 

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O presidente venezuelano Nicolás Maduro foi à televisão na quinta-feira passada anunciar o desmantelamento de um golpe de estado no país planejado e articulado pelos Estados Unidos e segmentos restritos da Força Armada Nacional Bolivariana, pelo que se sabe até o momento localizados apenas na força aérea do país. Até agora, como oficialmente anunciado, já foram detidos sete oficiais da arma. Como se vê, o modelo clássico dos históricos golpes de estado efetivados pela burguesia desde a formação de países independentes na América Latina nas primeiras décadas do século XIX.

Desde a vitória eleitoral do Movimento V República, em 1998, e o progressivo aprofundamento do modelo socialdemocrata radical implantado pelo presidente Hugo Chávez – modelo institucionalizado sob o nome de bolivarianismo, que incluiu a mudança do próprio nome do país para República Bolivariana da Venezuela –, desde então, a burguesia local e mundial, ancoradas no apoio sempre decisivo do imperialismo norte-americano, não tem poupado esforços para jogar por terra a nova institucionalidade do país. Esforços tanto no campo institucional, através de disputas eleitorais, quanto no recurso direto às armas, como o ocorrido em abril 2002; quando um golpe militar chegou a instalar na presidência da República por dois dias o burguês Pedro Carmona, desbancado por uma contraofensiva do jovem oficialato, que repôs Hugo Chávez no Palácio Miraflores.

Este golpe frustrado trouxe inúmeras consequências ao cenário das lutas de classes tanto no país quanto na América Latina como um todo. Internamente, o bolivarianismo se viu na oportunidade e necessidade de um aprofundamento político do modelo, o que, entre outras coisas, significou um processo de reorganização das forças armadas, com o afastamento de altos oficiais, a incorporação em postos de comando da jovem oficialidade e, não menos importante, a criação das Brigadas Bolivarianas e sua incorporação formal à Força Armada Nacional Bolivariana, composta pelo Exército, Marinha, Aviação Militar e estas brigadas. Sem se esquecer das brigadas populares, que desempenharam papel de importância igualmente decisiva na derrota dos golpistas de abril de 2002.

Externamente, o fortalecimento do bolivarianismo na Venezuela exerceu indiscutível influência nas vitórias de Evo Morales na Bolívia e de Rafael Correa no Equador, que vieram a formar com Chávez a base da pirâmide de uma nova correlação de forças diplomática e político-militar na América Latina. Resultado mais visível desta nova correlação de forças foi a progressiva desmoralização e o final desmoronamento da Organização dos Estados Americanos (OEA), sempre a serviço do imperialismo e fiadora de incontáveis massacres sofridos pelos trabalhadores do continente, substituída que foi pela Unasul (União das Nações Latino-americanas), fundada em 2008, e pela Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos), criada 2011. No interior deste quadro geral, pode-se assegurar ainda que sem a ajuda econômica da Venezuela bolivariana a Cuba dificilmente este país teria sobrevivido enquanto socialista.

Derrotada pois em seu intento golpista em 2002, a burguesia (capital nacional, capital internacional e estados imperialistas, EUA à frente) partiu para uma estratégia de derrubada do bolivarianismo através do caminho institucional, apresentando candidaturas em todos os níveis e instâncias, tendo seu candidato à presidência da república Henrique Capriles, governador do estado de Miranda, sido derrotado por Chávez em 2012 e por Nicolás Maduro em 2013. Esta última eleição, realizada pouco mais de um mês após a morte de Chávez, despertara grande expectativas de vitória da direita. No entanto, o projeto bolivariano novamente se impôs. Com a derrota, aprofunda-se a divisão da direita, fazendo surgir neste campo novas lideranças em torno da proposta da adoção da estratégia da derrubada do bolivarianismo pela força. No entanto, como dito acima, as forças armadas institucionais se encontravam firmemente alinhadas com o governo, não dando sinais de que sequer aceitariam acenos do golpismo. É neste quadro que são promovidas pela burguesia e pela classe média alta, a partir de fevereiro do ano passado, agudas manifestações de rua – as chamadas ‘guarimbas’ – com largo apoio da mídia privada nacional e internacional, a brasileira incluída, já no interior de um quadro de desabastecimento de bens e produtos alimentícios de consumo cotidiano, configurando a estratégia que resultara no golpe fascista contra Allende, no Chile, em 1973. De todo modo, o governo acabou controlando o movimento de desestabilização burguesa através de uma estratégia repressiva centrada na neutralização de suas principais lideranças, o que resultou na prisão do principal líder e organizador da ‘guarimbas’, Leopoldo Lopez, que se encontra até hoje preso.

Controlado o processo agudo de desestabilização, a burguesia intensifica a guerra econômica, com a sonegação de bens e produtos, a especulação e o contrabando atingindo níveis agudíssimos. De seu lado, o governo Maduro mantém uma política cambial altamente favorável à especulação, vendendo dólares a cerca de 6,5 bolívares à burguesia importadora, que, por sua vez, usa estes dólares para especulação financeira nos principais centros mundiais e, ainda, importando produtos a serem contrabandeados para a Colômbia, país que escancara sua grande fronteira com a Venezuela para a passagem ilegal destes produtos com o exato objetivo de contribuir para o aprofundamento da crise de abastecimento que atormenta o trabalhador venezuelano. A estatização do comércio externo – como pioneiramente proposta pela Associação Latino-Americana de Economia Marxista-ALEM – certamente impediria tais manobras da burguesia e, inevitavelmente, radicalizaria as lutas de classes no país em favor do proletariado. E este é o problema central do bolivarianismo: como uma socialdemocracia radicalizada, não tem no horizonte de seus agentes políticos institucionais e dotados de capacidade de iniciativa política (o partido oficial PSUV e a FANB, principalmente) a radicalização do movimento do proletariado que possa levar a uma insurreição e consequente instalação de um poder proletário, da ditadura do proletariado.

É extremamente preocupante que, mesmo que muito minoritariamente ao que se sabe até agora, membros da FANB tenham se disposto à aventura golpista destruída pelo governo esta semana. Mas, como alertáramos em artigo publicado na própria mídia de esquerda venezuelana, com o aprofundamento da crise a cada dia se faz mais presente a opção entre socialismo e barbárie. Ou seja, a última tentativa de golpe não foi um raio em céu azul. Somem-se a todos os fatores internos apontados, os interesses estratégicos do imperialismo europeu e norte-americano, fortemente contrariados em seus intentos expansionistas com a derrota do avanço sobre os países da ex-União Soviética, principalmente na região do Cáucaso, derrotado que foi pelo bloco Rússia-China, que conseguiu não apenas conter o avanço norte-americano-europeu, como (re)conquistar a Crimeia e parte do oriente da Ucrânia. A assim chamada Primavera Árabe – a maior fraude histórica do século até agora – trouxe mais problemas que soluções para a quadrilha Obama/Merkel/Hollande. A Síria, o grande objetivo, continua resistindo e ao que tudo indica não se transformará em mais um sonhado quintal imperialista na região. O que resta então, estrategicamente, ao imperialismo? Voltar suas atenções para a América Latina. É preciso, ruminam os estrategistas da Casa Branca, reconquistar a América Latina. Além de tudo, há muito petróleo na região. Venezuela, Bolívia e Equador possuem das maiores reservas mundiais de petróleo e gás.

Preparemo-nos então para um ciclo de lutas de classes agudas no continente de que a tentativa de golpe na Venezuela constitui movimento inicial. A extrema direita azeita suas armas para partir para a luta direta pelo poder, já que a direita não ostenta condições operacionais e ideológicas de travar a luta no nível que a conjuntura que se abre exige. O caso do Brasil é exemplar: não existe em lugar algum do mundo uma mídia tão degenerada, mentirosa, fascista e manipuladora quanto a grande mídia brasileira – jornal, rádio e televisão. Também na Argentina – que, a exemplo do Brasil, conta com um governo de direita que tropeça progressivamente em seus próprios vícios, os de origem e os adquiridos – as movimentações golpistas da extrema direita surgem a olhos vistos.

E a esquerda? Dramática e desgraçadamente a esquerda se encontra absolutamente desnorteada não apenas em nível nacional e continental, mas igualmente internacional. Ao reformismo tradicional fracassado, a enorme maioria da esquerda respondeu com o neorreformismo gramsciano e/ou com o trotsquismo, ambas, linhas estratégico-programáticas que jamais conduzirão o proletariado à vitória, dado que ancoradas em premissas conciliadoras e idealistas tipificadoras de um pensar e fazer pequeno-burgueses. Temos, pois, os marxistas um trabalho árduo pela frente: fazer presente o marxismo – devidamente materializado em estratégias e táticas articuladas a tempos e espaços concretos – nas lutas do proletariado através da própria intervenção direta nas lutas concretas deste proletariado. À luta, pois.

Venceremos!


 

 




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