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Charlie Hebdo: Violência e justiça

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O objetivo final dos comunistas é varrer da face da terra todo e qualquer tipo de violência entre os homens, entendida a violência como basicamente o exercício da força por seres humanos sobre outros seres humanos. E vemos a violência como fator essencial à existência da injustiça.  Lutamos, enfim pela justiça como um dos elementos estruturantes de uma sociedade – a sociedade comunista – composta por homens livres e socialmente iguais. Para nós marxistas, materialistas portanto, a prática da violência só pode ser pensada em face do parâmetro justiça, seu par dialético. E a ideia maior, referência paradigmática para se pensar violência e justiça, é a ideia, consolidada na Modernidade, de que os membros da espécie humana só podem realizar-se enquanto tais se detentores de uma vida propriamente humana, vista esta como exercício concreto de seu potencial físico, emocional e intelectual. A um homem oprimido/explorado é por princípio sonegado este potencial. Daí, a necessidade imperiosa da liberdade como exigência preliminar da justiça.

Desde, no entanto, quando a sociedade humana se dividiu em classes sociais, o que equivale a dizer em exploradores e explorados, em opressores e oprimidos, a história tem-se movido através das lutas entre as classes sociais que emergem a partir do contínuo desenvolvimento das forças produtivas. Na Era Moderna este desenvolvimento propiciou o surgimento da burguesia e do proletariado como classes fundamentais, instaladas nos alicerces do modo de produção capitalista. Como detentora do capital, a burguesia não tardou a jogar na lata do lixo os ideais de justiça de que lançara mão na luta contra o feudalismo absolutista. A violência, um valor sagrado na Idade Média, foi duramente combatida em palavras – e somente em palavras – por uma burguesia portadora fraudulenta do estandarte branco da paz, da igualdade, da fraternidade, da liberdade. Na realidade, a injustiça e a violência são e foram desde sempre absolutamente essenciais e indispensáveis à dominação burguesa, ao capitalismo. Ao proletariado sim, e só ao proletariado e a seus verdadeiros aliados, interessam a paz entre os homens, a justiça, a liberdade.

Evidentemente, os comunistas sabemos que não existem parâmetros éticos universais, que hipoteticamente independeriam dos tempos e dos espaços sociais e geopolíticos onde se instalam os agrupamentos humanos. A ideia, pois, da existência de valores universais é estranha aos comunistas, marxistas que somos e, enquanto tal, materialistas dialéticos. Mas existem, sim, horizontes éticos históricos que, mesmo quando agredidos por interesses classistas que lhes são contrários, permanecem como referência geral de longo prazo, como os padrões libertários de que falamos acima, que foram manipulados no processo de consolidação da burguesia como classe dominante, que os degenerou, em síntese, no chamado estado democrático de direito – este, um abastardamento do ideal libertário, a serviço da opressão e da exploração da burguesia sobre o proletariado. Mas como a existência do capitalismo e da burguesia implicam a existência do proletariado, infelizmente para a burguesia e seus serviçais acadêmicos e midiáticos aquele ideal libertário permanece vivo.

Os marxistas, que nos colocamos no mundo a serviço da libertação do proletariado e da humanidade das garras da violência e da injustiça, bem sabemos que a história – cuja síntese é a transformação de uma sociedade em outra – é a história de luta de classes. Sim, luta. Se sonhamos com uma sociedade comunista, sem classes sociais, sem violência e sem injustiça, se sonhamos este sonho, temos que lutar. E luta implica violência, esta, nas palavras de Engels, é a parteira da história. Para a burguesia a violência e a injustiça são pressupostos de sua existência enquanto classe. Para nós, os marxistas comunistas, a violência é um meio para acabar com a violência e a injustiça através da revolução proletária de implantação da sociedade socialista de transição ao comunismo, esta, uma sociedade sem classes e, por isso mesmo, sem violência e sem injustiça. Para a burguesia, a violência é um bem necessário.  Para nós, colocada a questão em seus termos mais simples, a violência é um mal necessário. Como acentuara o poeta proletário revolucionário Bertold Brecht, o tempo do capitalismo é um tempo de guerra.

É possível – e fundamental – que se fale, pois, em uma violência justa e, de outro lado, em uma violência injusta. De uma violência burguesa e de uma violência proletária. Uma violência, a burguesa, dirigida à perpetuação da violência. Outra, a proletária, dirigida à extinção da violência. É preciso afirmar que a ausência desta reflexão leva somente aos abismos do oportunismo, do sensacionalismo, do emocionalismo comercial que tanto prazer, e dinheiro, proporcionam à burguesia. Somente os serviçais da burguesia, travestidos em sisudos jornalistas e acadêmicos, repetimos, acreditam – dizem acreditar – em uma mudança histórica através do convencimento dos donos do capital e daqueles que dele se beneficiam, através das boas palavras, através das instituições burguesas a serem hipoteticamente conquistadas gradualmente por meio de argumentos e falas. Ou de voto nas eleições periódicas que a burguesia realiza para dar uma ‘arrumada’ em seu estado. É inacreditável como reformistas de todos os naipes comungam com o que há de mais rasteiro e abjeto na mídia e na academia burguesa uma não mais que tola crendice de uma mudança histórica qualitativa através do que ridiculamente chamam de ‘avanço social’, ‘hegemonia’ e especulações semelhantes. Isso, após cinco séculos de seguidos e repetidos fracassos – sempre trágicos para o proletariado – de suas fantasias.

Análise concreta
De tempos em tempos as lutas de classes desafiam os homens à reflexão crítica a respeito dos eventos, fatos e valores éticos significativos da vida social. Desgraçadamente, os tempos atuais desta etapa neoliberal do imperialismo, dita pós-moderna no campo das ideias e das ideologias, fazem prevalecer o individualismo, o pragmatismo imediatismo, o consumismo. E a irreflexão como virtude. Just do it, reza um mandamento publicitário que roda o mundo. Em tradução livre, Apenas faça, não pense.

E é esta escandalosa ausência de reflexão crítica que tem marcado a grande maioria das análises e observações sobre o fuzilamento de dez jornalistas do semanário satírico francês Charlie Hebdo e dois policiais por jihadistas islâmicos no último 7 de janeiro. As exceções, mais que louváveis, às montanhas de asneiras e que têm sido faladas e publicadas ficam por conta dos poucos analistas marxistas ou articulistas baseados em premissas gerais do marxismo. Na realidade, estamos diante de um fato cujo entendimento de causas e consequências pode nos propiciar lições de importância decisiva na compreensão do quadro geral das lutas de classes em nível internacional.

Antes de mais nada, é preciso ficar claro que a ação jihadista na redação do semanário francês não configura um ‘ato terrorista’, como o tem qualificado a imensa maioria dos jornalistas, zelosos guardiães do capital, e os tristes ‘intelectuais’ chamados às redações para ‘explicar’ o atentado que vitimou mortalmente os dez jornalistas daquele semanário. A característica fundamental e tipificadora de um ato terrorista é a agressão violenta indiscriminada, sem alvos humanos específicos. Exemplo: o lançamento pelo governo democrático dos Estados Unidos, presidido pelo assassino Harry Truman, de bombas atômicas sobre as populações das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945 (já encerrada a II Guerra, portanto), ao custo de cerca de 200.000 vítimas civis – idosos, crianças, enfermos. Este, sim, foi um verdadeiro e puro ato terrorista, levado a efeito com o objetivo específico de infundir medo de forma indiscriminada, de disseminar o pânico, de espalhar o terror. De passagem, é de se observar que nos eventos anuais de homenagem àquelas vítimas a autoria do crime de lesa humanidade não é mencionada pela grande mídia, burguesa evidentemente.

O que de fato ocorreu na redação do Charlie Hebdo foi um ataque dirigido, em que as vítimas já estavam previamente escolhidas, tendo algumas delas – os cartunistas, principalmente – chamadas pelo nome antes dos disparos. Rigorosamente, portanto, o correto será falar em execução. Mas a mídia burguesa prefere a expressão ‘ato terrorista’ dada a inescapável conotação social negativa da mesma, que induz naturalmente à criminalização e à condenação ao mesmo tempo em que – e esta é a questão central a ser discutida – bloqueia a análise séria do fato, suas verdadeiras causas, agentes e implicações. Afinal de contas, não interessa à burguesia uma análise honesta do fato. Para isso, seus assalariados na mídia batem o carimbo de ‘ato terrorista’ e ponto final. Esta é a questão.

Injustiça x injustiça
E indo diretamente à questão, a pergunta que nos cabe fazer é se tal execução constituiu um ato de justiça. E a resposta é um seguro não. Já que, baseados nos parâmetros enunciados no início deste texto, podemos afirmar não haver-se tratado de uma ação fundamentada nos verdadeiros interesses proletários, de uma ação que visasse à instalação de uma sociedade fundada na justiça e na liberdade.  Muitíssimo pelo contrário, o programa jihadista (se é que podemos chamar um disperso conjunto de mandamentos religiosos de programa) prega e defende a (re)instalação de sociedades feudais absolutistas em todo o mundo através de uma guerra santa (jihad), que na realidade só tem resultado em perdas humanas entre os próprios trabalhadores muçulmanos, usados pelos potentados árabes na preservação de estados e sociedades opressoras, exploradoras, liberticidas – antiproletários portanto. Prova mais que concreta da natureza antiproletária do jihadismo é o que acontece agora, exatamente agora, na Síria e no Iraque, onde legiões e legiões de trabalhadores são diariamente trucidadas pelo chamado Estado Islâmico, na realidade uma facção do jihadismo particularmente empenhada em derrubar pelas armas, pela violência, o governo sírio do presidente Bashar Assad, que tem conseguido barrar os objetivos dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) de transformar o país em mais um quintal do imperialismo, a exemplo que fizeram à custa de massacres os mais selvagens na Líbia, na Tunísia e no Egito na esteira desta farsa chamada “Primavera Árabe”.

Pelas informações disponíveis, os autores das execuções eram filiados à Al Qaeda. Ninguém de bom senso vai supor que a Al Qaeda constitua uma força proletária ou mesmo um possível aliado do proletariado. A Al Qaeda, como se sabe, expressa uma das inúmeras facções que compõem a monarquia absoluta da Arábia Saudita, uma das mais sanguinárias e opressoras do Oriente Médio. Sua formação tem origens remotas na derrubada, pelos Estados Unidos, do governo socialista do Afeganistão, então aliado da União Soviética, no início dos anos 80 do século passado. Osama Bin Laden, fundador da Al Qaeda, foi sabidamente um agente da CIA. Por tudo isso, que não venham culturalistas e assemelhados conceder qualquer razão a tais movimentos e forças de extrema direita a pretexto de que as mesmas estariam culturalmente “lutando contra o Ocidente”. Ora, a contradição do nosso tempo, a ser resolvida historicamente pela revolução socialista, é aquela que contrapõe burguesia e proletariado. À burguesia, isso sim, interessa por ‘a dialética de cabeça para baixo’ colocando a chamada questão cultural como decisiva. Washington aplaude. Aliás, metaforicamente pode-se dizer que foi o presidente dos Estados Unidos da América do Norte que colocou pessoalmente em mãos dos jihadistas as metralhadoras de onde saíram os projéteis que mataram os jornalistas do Charlie Hebdo.

E estes? Quem são, o que representam? Liberdade de imprensa? Ora, a qualquer pessoa dotada de autorrespeito tal expressão vociferada às enxurradas pelos jornalistas serviçais da burguesia de todo o mundo só pode causar náusea. Quem não cultiva o hábito de mentir para si mesmo sabe muito bem que falar em liberdade de imprensa no mundo capitalista não passa de uma fraude, de uma criminosa e grotesca fraude. A imprensa está nas mãos da burguesia, é um dos maiores negócios da burguesia, dos mais lucrativos. A liberdade não interessa à burguesia, nenhuma liberdade interessa à burguesia. Desgraçadamente a esmagadora maioria da esquerda, em nível mundial, engole o engodo de que liberdade e democracia são palavras sinônimas. A burguesia, outra vez, agradece. Desmascarar este embuste é hoje a principal tarefa dos marxistas no fogo das lutas de classes. A consciência de que devemos lutar por um estado próprio, um estado proletário oposto ao estado burguês em quaisquer de suas formas (ditatorial ou democrático), é condição decisiva e indispensável para a criação de um verdadeiro partido comunista, marxista, no país e no mundo. E sem tal partido, lembremos Lênin, não se pode sequer falar em revolução socialista.

De lado a asquerosa tragicomédia da manifestação popular em Paris, dia 11 de janeiro, em que o mundo assistiu estarrecido ao genocida primeiro-ministro israelense Beniamin Netaniahu desfilar cretinice e desfaçatez ao lado de um sem número de altos estadistas burgueses (Merkel, Hollande, Rajoy e mais e mais outros), precisamos nos perguntar se, ao condenarmos a execução dos jornalistas – como de fato condenamos pelas razões expostas quanto a seus autores e as ideias que os moveram –, deveríamos portar um daqueles cartazes que, às centenas de milhares, foram empunhados pelos cerca de 1,3 milhão de manifestantes: Je suis Charlie (Eu sou Charlie).

Não. Ora, tal semanário é uma publicação pequeno-burguesa. Tendo claro que a pequena burguesia é uma parte da burguesia, estamos diante de uma classe (subclasse, na verdade) contrária aos interesses revolucionários do proletariado. Como os marxistas nos posicionamos estruturalmente com o proletariado obviamente nós não somos Charlie, que é a posição a ser adotada também por qualquer segmento de esquerda que se pretenda sério. Como bem lembra o articulista Loch Lomond, no site Rebelión, o semanário Charlie Hebdo se posicionou à direita em temas e eventos de real interesse para o proletariado internacional: a) apoiou os bombardeios da OTAN sobre a Iugoslávia em 1992.  b) afirma sistematicamente que Cuba é uma ‘ditadura’. c)  garante igualmente que Chávez era um ‘ditador’. d)  aprovou o bombardeio da Líbia pela OTAN. e) festejou o bárbaro assassinato do presidente líbio Ghaddaffi.  f) posiciona-se sistematicamente contra os palestinos. g) defende a intervenção imperialista na Síria. Bem, trata-se de dados. Aqui, é preciso deixar claro que a execução dos jornalistas não foi motivada pelas posições acima assumidas pelo Charlie Hebdo, mas por seus textos e, principalmente, charges desrespeitosas a Maomé, fundador do islamismo.

Caberia, então, desde um ponto de vista proletário, ‘justiçar’ os pequenos burgueses do Charlie Hebdo pelas posições acima? Não. E não porque seríamos contra a violência revolucionária, necessária e decisiva na tomada do poder pelo proletariado. A questão é que este eventual ‘justiçamento’, além de desproporcional como punição aos posicionamentos e gracinhas perpetradas por estes verdadeiros bobos da corte entediados com suas vidas ridículas, não se inseriria em um projeto revolucionário sério, marxista, materialista. A tentativa de assemelhá-lo ao brasileiro O Pasquim não passa de mais uma fraude da mídia burguesa. O Pasquim foi um jornal sério, apesar de ter no humor seu material de trabalho. Na realidade, publicações como este Charlie Hebdo não têm sequer dimensão política para se constituírem em alvo da violência revolucionária do proletariado. São isso mesmo: bobos da corte burguesa, insignificantes bobos da corte burguesa.

Que se espere uma continuada e progressivamente agressiva campanha da burguesia a partir do episódio do semanário francês. Aqui no Brasil – onde uma mídia ferozmente fascista ganha corpo dia a dia a partir da radicalização pela extrema direita da última campanha presidencial – precisamos desde já partir para um combate político mais organizado contra jornalistas e acadêmicos vendidos que, montados na onda do ataque ao Charlie Hebdo, intensificarão sua guerra suja à esquerda e ao proletariado.

VENCEREMOS!


 

 




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