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Uma nova derrota sofrida pelo imperialismo norte-americano

 Sem ttulo


Otto Van der Velde Quijada

Dirigente do Partido Revolucionário dos Trabalhadores 
Venezuela

 

Depois de meio século, Barack Obama acaba de anunciar que o governo norte-americano retomará as relações com Cuba. Explica o presidente norte-americano que 53 anos de isolamento não deram resultado e que esta política “obsoleta” fracassou. Como dizem os advogados, “a confissão das partes dispensa a apresentação de provas”.

Não é exatamente uma demonstração de inteligência esperar mais de meio século para reconhecer o erro de uma política ditatorial, condenada pelo mundo e dezenas de vezes reprovada em votações na ONU. O indiscutível fracasso desta estratégia colonial, como confessa um representante do imperialismo mundial, nos remete às palavras de Garcia Márquez: crônica de uma morte anunciada.

No entanto, um segundo depois do importante anúncio, uma avalanche de comparsas e ressentidos buscava uma maneira de remendar a derrota imperialista, atribuindo a decisão ao “diálogo” entre as forças, ao encerramento do “embate histórico entre ambas as nações e das agressões mútuas”; porque “ambas nações deram o braço a torcer”, à ousadia de Obama, à bênção do Papa Francisco. Ou simplesmente guardando um vergonhoso silêncio, como fez a MUD (Mesa de Unidade Democrática, frente de partidos de direita venezuelanos), que no dia seguinte festejava com entusiasmo investigações abusivas dos EUA contra funcionários do governo bolivariano eleito, na prática apoiando o governo norte-americano em sua agressão à soberania do povo venezuelano e seus direitos como estado-nação.


Em outras palavras, produziu-se uma avalanche de “reconhecimentos” para todos, menos para os verdadeiros heróis do episódio, ou seja, menos para o povo revolucionário de Cuba e sua alta consciência de luta e dignidade, bem representada pelos Cinco Heróis da Revolução, pelos comunistas cubanos e o governo revolucionário de Cuba presidido por Fidel e Raul Castro, os quais, com base em uma estratégia impecável e na resistência popular de longo prazo, conseguiram torcer o pescoço do imperialismo mais agressivo e sangrento da história humana.


Na realidade, como também observa o analista A. Aranguren, acreditamos que se trata de uma proeza política da mesma dimensão histórica da derrota militar sofrida pelo exército norte-americano e seus cúmplices da OTAN pelas mãos do povo revolucionário vietnamita, dirigido pelos comunistas do Vietkong. Afinal, como afirmou Von Clausewitz, a guerra não é mais que a continuação da política por outros meios.


Sabemos que o impiedoso bloqueio não terminou, mas está ferido de morte. Da mesma forma, a postura imperialista de Obama e da burguesia norte-americana obviamente será mantida. Parlamentares republicanos, os gusanos de Miami e alguns ‘democratas’ já anunciaram que vão bloquear a medida, “que favorece a ditadura cubana”, sem fazer uma mínima menção à denúncia do próprio senado norte-americano reconhecendo as torturas e os crimes da CIA em Guatânamo e nas suas bases secretas na Europa.


Um mar de contradições agita o imperialismo norte-americano. No dia seguinte da confissão do fracasso da guerra imperialista aberta contra Cuba, o herói de Pompeyo Márquez (ex-militante comunista e guerrilheiro venezuelano que se aliou à burguesia no combate ao socialismo), como se nada tivesse acontecido, assinou a uma condenação dos funcionários bolivarianos, em uma descarada defesa dos terroristas presos na Venezuela por crimes contra os direitos humanos durante o golpe de estado de 2002-2003 e as guarimbas de fevereiro de 2014.


Cabe então a pergunta do analista Reinaldo Quijada: quais são as os verdadeiros motivos que levaram os Estados Unidos a adotar a nova estratégia frente a Cuba? A burguesia imperialista norte-americana e seus sócios europeus certamente não deram este passo por humanismo ou coragem política.


Por trás do anúncio do restabelecimento das relações diplomáticas está a longa luta dos povos do planeta – inclusive de segmentos progressistas do povo norte-americano contra o intervencionismo ianque; estão as inquietantes cifras da crise capitalista mundial, da qual não escapam os Estados Unidos, com sua economia mergulhada no vaivém recessivo.


Menos ainda escapam da crise estrutural do capitalismo os países satélites da OTAN nem seus lacaios poloneses, romenos, húngaros e de outras ex-nações socialistas do Leste Europeu, estremecidas por greves gerais e dívidas públicas superiores a 90 e 100% do PIB. Apesar da exploração capitalista sobre os trabalhadores e os povos da Europa, as economias de mercado não conseguem sair do zero, realidade que provoca arrepios no grande capital financeiro-industrial do mundo, agitado pela caótica situação do mercado mundial, da louca competição capitalista, dos golpes e das invasões militares.


Um panorama que se complicou ainda mais com a entrada decisiva da China e da Rússia no cenário econômico-político da América Latina e do Caribe, o que estimula uma mudança da correlação de forças e aponta para a formação de blocos protecionistas e novas políticas de integração regional.


Integra ainda o conjunto das contradições capitalistas no continente latino-americano o fracasso da Alca, assim como das variáveis neoliberais como a Aliança do Pacífico, também conhecida no jargão neoliberal com “os pumas do Pacífico”, países dos quais se poderia esperar o mesmo desastre social dos outrora “tigres asiáticos”.


Não há, portanto, qualquer traço de humanismo no tardio anúncio de Obama. Pode-se, aliás, considerar a decisão imperialista sobre Cuba um verdadeiro Cavalo de Troia, já que baseada na tática de tomar a fortaleza a partir de dentro, estabelecendo redes internas que redirecionem a economia cubana e abalem as profundas conquistas sociais da Revolução, que manipulem as ideologias reformistas e estimulem a ideologia do novo-riquismo, aberto ou disfarçado, presente nas hostes dos opositores cubanos.


Nós, do Partido Revolucionários dos Trabalhadores, não temos dúvida de que se trata de uma diretriz da direita internacional, o que abre um novo desafio, inevitável, tanto para o povo cubano como para os marxistas cubanos e latino-americanos. Frente a isso temos que traçar uma linha correta de ação; dar uma resposta precisa à mudança estratégica do imperialismo mundial em relação a Cuba e o entorno latino-americano.


Mudança estratégica que seguramente aponta para o objetivo de quebrar o progressismo, dividir os blocos integradores e isolar as correntes nacional-revolucionárias do continente latino-americano a qualquer preço.


Mais uma vez se evidencia a linha geral capitalista de deturpar a luta de classes para tentar bloquear o ascenso do proletariado, impedir mudanças socialistas em suas portas, resolver a crise estrutural do capitalismo à custa dos ganhos sociais, ideológicos e políticos obtidos pela maioria de nossos países. Dito de outro modo: transferir a crise capitalista mundial para a América Latina, que os imperialistas norte-americanos consideram o quintal de sua casa.


 

 




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