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Argentina, nova greve geral no horizonte

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por Eduardo Sartelli
Eduardo Sartelli é militante da organização

marxista argentina Razón y Revolución

 


A política desenvolvida pelo casal Kirchner (primeiro Nestor, depois Cristina) à frente do governo argentino retoma o caminho pavimentado pelo peronismo na história dos governos burgueses de corte populista da história do país: Peron começou pela esquerda (1945-1950/1973-74) e terminou pela direita (1951-55/1974-75). Assim como Peron, os governos Kirchner começaram com subsídios ao proletariado, contenção de tarifas públicas e aumentos salariais. Foi o que ocorreu no período 2002-2009. Desde então, todas as tendências positivas se interrompem e começam a inverter-se. A inflação dispara e os reajustes salariais começam a ser feitos abaixo dos índices da inflação, provocando uma erosão crescente dos ganhos dos trabalhadores. Como consequência, se produz uma ruptura de uma parte dos sindicatos com o governo.

Há trinta anos, existem na Argentina pelos menos duas grandes centrais sindicais, uma peronista (a Confederação Geral do Trabalho-CGT) e uma socialdemocrata (a Central dos Trabalhadores Argentinos-CTA). No início, ambas se aliaram ao kirchnerismo, mas logo se fracionaram, gerando facções de oposição ao governo (CGT Moyano e CTA Micheli) e oficialista (CGT Caló e CTA Yaski). Ao lado das duas grandes centrais se encontram outros agrupamentos sindicais menores, como a CGT Barrionuevo e grupos de tendência maoísta (Corrente Classista e Combativa/CCC) e trotsquistas (Polo Operário e outros).


Nos últimos dois anos, a deterioração acelerada da economia vem dando força aos agrupamentos que fazem oposição ao governo. O mais importante de todos, a CGT dirigida pelo caminhoneiro Hogo Moyano, possui menos sindicatos filiados em sua base, mas ostenta maior dinâmica política e combatividade. Foi o principal ponto de apoio do governo até pouco tempo, mas agora se tornou seu principal inimigo no interior da burocracia sindical. A CTA dirigida pelo funcionário público Pablo Micheli também tem ganhado peso em relação a seus ex-companheiros da CTA oficialista, dirigida pelo bem comportado e obediente professor Yasky. Mas quem vem obtendo maior influência no movimento sindical argentino são os partidos da esquerda revolucionária que integram a Frente de Esquerda dos Trabalhadores/FIT, de orientação trotsquista. Estão presentes em todos os sindicatos do país, disputando direções de comissões de fábrica a partir das próprias bases operárias. Seu êxito eleitoral recente, com mais de um milhão de votos, é expressão desta presença no movimento operário. Nos últimos seis meses, a crise econômica contida apenas parcialmente provocou uma forte desvalorização da moeda, de mais de 30%. Além disso, foi baixado um brutal reajuste das tarifas de gás, transporte e água de até 500%, estando previsto outro ataque de dimensão semelhante nas comunicações e eletricidade.


As reservas do Banco Central desabaram, enquanto a emissão de moeda disparou. A inflação pode atingir este ano de 50 a 60%, enquanto os salários têm sido ajustados apenas em 30%. Para tentar conter o avanço do dólar paralelo, o Banco Central triplicou a taxa de juros, o que afundou o país na recessão: nos três primeiros meses deste ano o PIB caiu 3% em comparação com igual período do ano passado.


Neste contexto, o governo se depara com dois problemas: conseguir financiamento externo e enfrentar a resistência do proletariado ao ajuste econômico. O governo, que chegou a posar de oposição ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), baixou a cabeça e foi negociar com o Clube de Paris e com o próprio FMI, acreditando que receberia dólares como prêmio pelo ajuste neoliberal ortodoxo que está realizando. Nos dois casos, tem recebido a mesma resposta: não basta. Esta falta de apoio financeiro agrava ainda mais a tensão junto aos trabalhadores: ao final do ano passado, o governo teve que enfrentar uma greve dos policiais, que conseguiram dobrar seu salário. No início de março foi realizada uma longa greve de dezoito dias dos professores da província de Buenos Aires, com a participação de 500.000 trabalhadores da educação. A greve terminou com a vitória dos professores, que aumentaram em quase 50% seu salário base. É neste contexto que se insere a greve geral de abril.


A greve, dirigida basicamente por grupos de oposição sindical (CGT Moyani, CTA Micheli, CGT Barrionuevo y FIT) obteve uma participação muito elevada (cerca de 90%). O governo tentou diluir sua importância argumentando que sua massividade se deveu à paralisação dos transportes em razão dos piquetes da esquerda (que cortaram todos os acessos às grandes cidades), mas a verdade é que não houve maiores restrições à circulação. O que aconteceu é que, para evitar o desconto do dia de trabalho, a maioria dos trabalhadores alegou razões de força maior para não ir trabalhar. Mas todos analistas afirmam que se tratou de uma das greves gerais de maior impacto desde 1983.


Como consequência, o governo teve que abandonar a proposta inicial que fez às comissões de negociação de aumentos não superiores a 25%, e teve que aceitar aumento acima até de 30%. Teve também que aceitar a proposta de aumentar o piso do imposto de renda, que na Argentina atinge os trabalhadores de maiores salários, mesmo que seus aumentos sejam apenas correspondentes ao avanço da inflação.


Como a tendência da crise é se aprofundar na medida em que se enfraqueça o efeito positivo da grande colheita de soja, o que deve acontecer até a metade do ano. O que se espera é mais inflação e mais desvalorização. Obviamente, mais luta.


 

 




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