Logo

A lenta agonia da Argentina kirchnerista

 aregentiinte

por Eduardo Sartelli
Eduardo Sartelli é militante da organização marxista argentina Razón y Revolución


O governo de Cristina Fernandez Kirchner enfrenta um cenário complexo, impensável há um ano e meio. Pouco depois de obter uma vitória eleitoral indiscutível, a presidenta se impôs um auto-exílio alegando motivos de saúde, enquanto seu gabinete ministerial descamba ladeira abaixo tomando medidas do tipo “mais do mesmo” depois de haver acenado com uma reformulação completa da política oficial. A rebelião policial e, a seguir, os cortes de eletricidade abortaram os alegados planos de renovação alardeados pelo chefe da equipe ministerial, Jorge Capitanich, nomeado pela presidenta logo em seguida às eleições. A sensação de que Cristina gastou seu último cartucho e de que o país se encontra como um barco à deriva – com o timão quebrado, vento contra e em meio a um mar revolto – é cada vez mais evidente. A presidenta se encontra de fato em uma encruzilhada: ou faz uma mudança de 180 graus na política econômica ou não chega ao final de seu mandato; e se levar a efeito esta transformação, de graves e evidentes consequências sociais, corre o risco de terminar em meio a um banho de sangue. Em nenhuma das hipóteses pode assegurar qualquer forma de continuidade do poder.

Para entender as alternativas possíveis é preciso perguntar por que chegamos à situação atual. Recordemos que o governo se jacta de seu ‘modelo’, que chama de “crescimento com inclusão social”: aumento do emprego e da renda, pagamento da dívida externa, aumento das reservas, superávit nas transações externas e no orçamento estatal e inflação sob controle. Por que, então, estamos como estamos?

Para entender o fracasso kirchnerista é necessário considerar os elementos constitutivos da economia argentina. A Argentina é um país agrário, hoje e há cem anos. Durante a primeira etapa de sua vida, cresceu a um ritmo notável, transformando um “deserto” em uma economia desenvolvida. Porém, durante a primeira metade do século XX o galope se transformou em trote e, ao final do século, em passo de tartaruga. A diminuição do ritmo de crescimento histórico da Argentina coincide com o avanço da “industrialização via substituição de importações”. Voltada apenas para o mercado interno, atrasada e de limitada competitividade mundial, a economia sobrevive somente por transferências de ingressos do setor agrário. Desde o IAPI – Instituto Argentino de Promoción del Intercambio, criado por Perón em 1946 para gerenciar o comércio externo – até as retenções dos kirchneristas, a indústria local constitui um limite ao crescimento econômico. Enquanto os preços agrários se mantêm altos, toda a economia se expande, mesmo ocorrendo alguns tropeços de vez em quando (1920-1950). No longo prazo, no entanto, a situação se agrava pelo crescente peso do PIB não agrário, que se torna progressivamente um peso difícil de carregar.

Os “tropeções” se tornam quedas cada vez mais graves (1950-1970) e se transformam em verdadeiras catástrofes a cada sete ou dez anos (1975-1982-1989-2001-2012). Para compensar a insuficiência da renda agrária, aparecem a dívida e a inflação, cujas consequências são postergar e ampliar a dimensão das crises, que provocam no longo prazo a degradação constante da vida do conjunto da população.

Os anos 80 do século passado foram anos de inflação e dívida; os 90, da dívida e das privatizações. A década kirchnerista se apoiou na expansão agrária, no consumo não reprodutivo da infraestrutura energética e de serviços instalada durante os anos 90 e nos baixos salários implantados por Menem e a crise de 2001. Ou seja, as ilusões K se nutriram da renda agrária e da herança menemista. Uma base mais que substantiva. Por que, então, estamos como estamos? A resposta é simples: porque chegamos ao fim de um ciclo de expansão ininterrupta dos preços agropecuários e já gastamos a herança do “Tio Carlos”. A realidade, então, se impõe. A crise que enfrenta o governo de Cristina Fernández Kirchner não é mais que um giro da espiral descendente em que o país se encontra mergulhado há no mínimo sessenta anos.

Qual é a solução? À maneira capitalista, ou seja, do governo e da oposição, através de uma nova rodada de “compensações”: mais dívida, mais inflação, mais pobreza? O que diferencia governo e oposição é apenas a forma: o governo não consegue se definir entre deixar-se levar caoticamente à catástrofe (como o fez o ministro peronista Celestino Rodrigo ao desmontar em 1975 um plano de controle de preços e salários, gerando uma forte inflação reprimida) ou, então, organizar o processo através de um ajuste de fato e de direito, como no Plano Austral; a oposição espera que o governo se destrua ou que a crise se agudize e as variáveis se ordenem por si mesmas.

Às massas argentinas cabe a tarefa de buscar uma alternativa fora da lógica dos programas e partidos que governam a Argentina desde 1810 até hoje. A lenta agonia da Argentina kirchnerista não é senão um capítulo a mais da longa agonia de todo um país, agonia de que não sairá até que outra classe o reconstrua à sua imagem e semelhança.


 

 




© Copyright 2011 - 2012 www.mmarxista5.org