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Mandela: Luta racial e luta de classes

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A morte do heroico combatente do proletariado Nelson Mandela, quinta-feira passada em Johanesburgo, comoveu a todos aqueles que lutamos pelo ideal da justiça e da solidariedade entre os homens. Por isso, nos indignou profundamente o uso que a mídia burguesa fez do falecimento daquele que foi e é um dos representantes de toda a luta dos debaixo de todo o mundo contra a opressão e a exploração. A mesma mídia internacional que hoje defende e propugna – de forma disfarçada e ardilosa, como é próprio da burguesia decadente e seus representantes e capachos, mídia incluída – o racismo e a exploração, derrama rios de lágrimas pela morte de Mandela. Lágrimas de fingidas, cruéis.

Foi no mínimo revoltante, por exemplo, o uso da imagem de Mandela no evento promovido pela Fifa e pelo governo brasileiro sexta-feira 06/12 para sortear os grupos em que competirão as seleções classificadas para a Copa do Mundo do ano que vem. Pouco importa aqui, em uma análise que se propõe rigorosamente materialista e marxista, se o então ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela apoiou e incentivou a edição anterior da Copa do Mundo de Futebol, em seu país. Não se trata aqui de criminalizar, de buscar culpados. Marxismo não é inquisição. Trata-se, sempre, de identificar erros e aprender com a história, fazendo deste aprendizado uma arma de luta, nossa mais aguda arma de luta.


É preciso, pois, distinguir a estratégia política de unidade nacional com a burguesia – que incluiu o apoio à Copa de 2010 em seu país – que Mandela julgou, equivocadamente a nosso juízo, a mais adequada para a libertação de seus e nossos irmãos negros sul-africanos da inqualificável e abjeta política de segregação oficial a que foram submetidos por quase um século sob vistas grossas das grandes potências imperialistas. Equivocadamente, porque a superação do apartheid, sintetizada na própria eleição de Mandela à presidência do país e que havia custado a vida de milhares de militantes e revolucionários da África do Sul, manteve as misérias, humilhações e desgraças em que continua vivendo o proletariado sul-africano.


Que se faça, pois, rigorosa a distinção entre esta dimensão imediatamente política de Mandela e sua dimensão humana e histórica, esta, na linha daqueles que puseram em seus horizontes maiores a libertação de seus povos como parte da grande jornada da libertação da humanidade. Na dimensão de seu compatriota Steve Biko, assassinado pelo regime do apartheid, e de Agostinho Neto (Angola), Samora Machel (Moçambique) e Patrice Lumumba (Congo) que viveram e morreram pela libertação do proletariado de seus países. Para ficarmos em poucos e significativos exemplos. E é deste Mandela que nós os comunistas não podemos admitir que a burguesia se aproprie. Não podemos tolerar que todo o sofrimento, inclusive os 27 anos de prisão por que passou o combatente libertário Nelson Mandela, seja usado em festivais de mentiras e hipocrisias em torno de coisas como estes megaeventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) planejados, pensados e organizados com o único objetivo de encher mais os bolsos de burgueses, nacionais e internacionais.


Exemplos e lições

Hoje, além de guardar um sincero luto pela morte de Mandela, os comunistas precisam refletir sobre os exemplos e lições que sua luta nos deixou. O exemplo maior, a herança maior, a esperança e a confiança na vitória. A revolução como vida. A dimensão existencial que enfatizamos acima. Politicamente, há lições a aprendermos.

A primeira e mais imediata, a de que a luta contra o racismo não pode ser travada de modo a desvinculá-la da luta pelo socialismo. É o que provou a experiência da África do Sul. É preciso entender que o capitalismo cria preceitos e preconceitos ideológicos em função de manter e aprofundar a opressão e exploração sobre os trabalhadores. Ou, então, herda cumulativamente tais preceitos e preconceitos de sociedades classistas que lhe precederam. Em Angola e Moçambique, o abandono do ideário socialista que motivou toda a luta guerrilheira anti-colonial – abandono cujas razões ainda estão a ser mais bem explicitadas e aprofundadas – resultou no surgimento de novas classes dominantes, exploradoras portanto, integradas por homens e mulheres de pele negra.

O mesmo ocorre hoje na África do Sul, com o agravante talvez de ter sido o socialismo abandonado já no interior do partido Congresso Nacional Africano, hegemônico na luta contra o racismo, como linha estratégica em derrotas frente às propostas nacionalistas de unidade com a burguesia em troca da extinção do apartheid. Em outras palavras, trocou-se o fundamental pelo imediato. E esta é a questão estratégica decisiva, fundamental e estruturante de toda a luta do proletariado em todos os tempos, em todos os lugares. E o erro cometido na África do Sul é e tem sido o erro cometido por todas as variedades do reformismo nos quatro cantos do mundo


Como bandeira de todo este rosário de erros, a ladainha democrática, a fraseologia da tal “democracia como valor universal”, que tantos e inestimáveis serviços tem prestado à burguesia e à qual esta burguesia ergue palácios e catedrais. A tão almejada “democracia racial”, que tanto ilude a bem intencionados quanto arma estelionatários políticos mundo afora, passou a existir na África do Sul e existe plenamente, por exemplo, nos Estados Unidos. E os Estados Unidos e a África do Sul continuam a ser países essencialmente racistas, em que o proletariado negro constitui o segmento dos trabalhadores mais explorado, humilhado e ofendido.


Guardadas as devidas proporções, ocorre e ocorreu no Brasil movimento semelhante. A luta contra ditadura foi hegemonizada pelo ideário democrático, não socialista e mesmo anti-socialista. Deu no que deu e no que está dando. É preciso aprender com a história.


Dito tudo isso, registramos aqui nossas homenagens e respeito a todos aqueles combatentes que, mesmo com erros e equívocos, lutaram pela libertação do proletariado. Mandela foi e é um dos mais importantes entre eles. 


 

 




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