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Abaixo a agressão à Síria!

Depois de dois anos e meio de agressão indireta à Síria, o imperialismo – Estados Unidos à frente – parte agora para a tentativa de desfechar um ataque bélico direto e declarado àquele país e seu governo. Ninguém minimamente informado e de boa fé tem qualquer dúvida de que os “rebeldes” que vêm buscando derrubar, ao custo de já mais de cem mil vítimas civis, o presidente Bachar Assad não passam mesmo de milícias mercenárias devidamente armadas, dirigidas e orientadas pelas potências imperialistas (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França) e seus aliados e serviçais locais, como Israel, Arábia e Turquia entre os mais importantes.

Da mesma forma, qualquer pessoa que tenha acompanhado mesmo de maneira geral os métodos de ação do imperialismo, desde sua emergência como forma de ser do capital financeiro e monopolista, sabe muito bem do rosário de mentiras pretextadas pelo sistema na tentativa de tentar justificar perante a humanidade todo o sangue inocente que tem feito jorrar desde então.

 

Mas vale lembrar aqui, sem precisar ir muito longe, que em 1934 Hitler ordenou a seu serviço secreto que incendiasse o prédio onde funcionava o Reichtag (parlamento federal alemão) e atribuiu o crime a um inexistente plano que teria sido comandado por Dimítrov, então dirigente da III Internacional. Feito isso, antes mesmo do processo que condenou Dimítrov, Hitler concluiu seu próprio plano e fechou o parlamento. Em 1964, os Estados Unidos bombardearam um seu próprio navio no Golfo de Tonquin, no então Vienam do Norte, para tentar justificar o ingresso direto de suas forças armadas na Guerra do Vietnam, de onde acabaram sendo heroicamente escorraçados pelos trabalhadores vietnamitas em 1974. Mais recentemente os que têm memória se lembram da farsa montada pelo general norte-americano Colin Powell e o presidente George W. Bush em 2003 para invadir o Iraque, dizimar civis, destruir patrimônios culturais da humanidade e assassinar o presidente Saddam Hussein. Em 2005, o mesmo Powell se viu obrigado a confessar, diante de evidências, ter sido mentirosa a afirmação que fez de que Saddam possuía armas atômicas, pretexto utilizado para a invasão. Aqui entre nós, no Brasil, foi um inexistente “Plano Cohen” (elaborado pelo então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser um dos cérebros da ditadura assassina de 1964-85) que serviu de pretexto para o golpe protofascista de 1937, que instituiu a ditadura do Estado Novo.

Com um descaramento digno dos piores atores de uma tragicomédia tão grotesca quanto cruel, vêm agora os Estados Unidos afirmarem, sem apresentarem um vestígio sequer de indício, que o governo sírio utilizou gás sarin para matar 1429 pessoas nas proximidades de Damasco. E seria por isso que o esperto presidente Barack Obama propõe a todo custo uma intervenção militar para derrubar o presidente Assad. Na Grã-Bretanha, o primeiro aliado a ser convocado para mais uma empreitada genocida, a exemplo da que participou ano passado na Líbia, o parlamento mediu os inconvenientes para a própria governabilidade burguesa no país e recusou a proposta adesista do primeiro-ministro Cameron, conhecido belicista, de extrema direita. Na ONU, já se configura uma recusa ao convite à morte e ao novo assassinato em massa proposto por Obama. No próprio congresso norte-americano há sinais de que a ideia de envolver o país em um novo Vietnam pode ser mais um tiro no pé, mesmo com o presidente garantindo que faria “apenas” uma intervenção cirúrgica de curta duração através de bombardeios. Como se sabe, garantia de Obama hoje não vale mais que uma nota de três reais, inclusive porque investigações recentes demonstram que a fotografia de dezenas de cadáveres enfileirados – adultos e crianças – é na realidade uma foto de autoria do fotógrafo italiano Marco Di Lauro feita há dez anos no Iraque na época da referida invasão imperialista, que contabiliza entre seus crimes vários episódios de dizimação de populações civis, como o documentado pela própria foto.

Barack Obama é um homem cruel e assassino, Colin Powell é um homem cruel e assassino, George Bush é um homem cruel e assassino. Mas para que possam exercer impunemente suas deformações morais e ideológicas é preciso que atuem no interior de uma lógica sistêmica cruel e assassina: o sistema imperialista, modo de existência do capitalismo na era dos monopólios e da hegemonia financeira. Esta é a questão central e de fundo que todos os que lutam pela causa do proletariado têm que ter em mente para suas iniciativas e combates. A atual fase imperialista do capitalismo é por natureza e essência belicista e predadora, superando o interregno liberal e retornando aos tempos da acumulação primitiva que, ao lado de uma brutal intensificação da exploração dos trabalhadores do seu próprio país e da escravização de imensos segmentos da população africana, as classes dominantes da então emergente potência mundial Inglaterra fizeram do uso de corsários (piratas a serviço do governo) uma mola mestra da acumulação primitiva de capitais, ao ponto de o mais desalmado assassino entre estes, Francis Drake, ter sido então o único homem no mundo que não precisava pedir audiência à rainha Elizabeth I, entrando palácio a dentro na hora que bem entendesse. O capitalismo, pois, nasce sob o signo do sangue e da pilhagem. E sob o signo do sangue e da pilhagem vive hoje.

Pela lei da tendência decrescente da taxa de lucro, formulada por Marx, a competição entre os capitais, monopolísticos ou não, faz com que o sistema tenha sempre que recorrer a inovações tecnológicas para fazer frente ao competidor onipresente. Com isso, diminuindo-se a presença da força de trabalho viva, humana, substituída por técnicas e maquinaria mais e mais modernas, cai a taxa média de lucro, já que este se origina da mais-valia, que só pode ser produzida pelo trabalhador, como provou exaustivamente Marx, cientificamente, no O Capital entre outras obras. Como se sabe, ao final do século XIX/início do século XX, o capitalismo se vê diante de uma crise estrutural da realização de lucros, com seus mercados internos e tradicionais estreitando-se progressivamente diante da emergência de novas potências capitalistas no cenário mundial, com destaque para Japão e Alemanha. É neste feixe de contradições, nesta necessidade inescapável de abrir mercados, de um novo ciclo de pilhagens, que surge o imperialismo, com as igualmente necessárias práticas coloniais que se julgavam historicamente superadas, agora sob a forma de uma espécie de neocolonialismo.

Guerras e genocídios

É na soma destas duas variantes (estreitamento dos mercados e queda da taxa de lucros) que podem ser entendidas as duas guerras mundiais. O genocídio cometido ontem pela Alemanha contra os judeus e hoje por Israel contra os palestinos. As bombas atômicas sobre as cidades Hiroshima e Nagasaki, quando o governo norte-americano, na presidência do democrata Harry Truman, queimou vivos quase 200.000 civis inocentes – homens, mulheres, crianças. É também fruto da lógica assassina do imperialismo as mortes das cerca de cem mil pessoas até agora contabilizadas nestes dois anos e meio de agressão imperialista à Síria.

Pois é uma agressão imperialista o que ocorre na Síria. Acossados presentemente por uma agudíssima crise cíclica do sistema, evidenciada com a falência dos grandes monopólios financeiros em 2008 nos países centrais e a quebra dos estados capitalistas da periferia europeia, só restou aos governos imperialistas buscar um novo reordenamento nos países da periferia que pudesse recompor a longo prazo as margens progressivas de lucro necessárias à própria sobrevivência do sistema. Este é o pano de fundo da chamada Primavera Árabe, que na realidade não passa de uma tentativa de modernização dos estados norte-africanos e do Oriente Médio diante do nível de apodrecimento dos governos instalados na região nas décadas de 50 e 60 do século passado, que, no limite, obstaculizariam um novo ciclo de pilhagens, como no caso claro da Tunísia e do Egito. Note-se que as iniciativas de governos socialistas e nacionalistas naquelas décadas foram literalmente esmagados pelo imperialismo, diretamente no caso da deposição de Mohammed Mossadegh no Irã em 1953 e de Ahmed Ben Bella na Argélia em 1965. O que se repetiu agora, com a derrubada e o assassinato de Muammar Gaddafi na Líbia.

Em jogo de maneira mais clara no Oriente Médio, as imensas reservas estratégicas de petróleo, sabendo-se que as reservas dos Estados Unidos em seu próprio território se esgotarão em 2030. Desde o final da Segunda Guerra, os países imperialistas contam com aliados absolutamente confiáveis, servis, na região, com o destaque óbvio da Arábia Saudita e de Israel, que têm desempenhado papel fundamental na atual guerra da Síria, com fornecimento de armamento pesado e sofisticado, além de assistência técnica, aos mercenários de variadas etnias que tentam derrubar o regime social-democrata de Bachar Assad, entre os quais ex-presidiários da própria Arábia e do Iêmen libertados exatamente para comporem as forças mercenárias, às quais a mídia capitalista não hesita em chamar mentirosamente de “insurgentes”. A mesma mídia que insiste em qualificar Bachar Assad de “ditador”, omitindo que o mesmo, já Chefe das Forças Armadas, foi eleito por referendo popular em julho de 2000, sendo reeleito em novo referendo em maio de 2007, quando obteve uma votação de 97%.

Rússia e China

Outras duas peças importantes no complexo feixe de contradições relacionadas à atual agressão imperialista à Síria são os interesses da Rússia, nos amplos mercados dos países da ex-União Soviética e do Leste Europeu, e da China no centro asiático e no Extremo Oriente, regiões em que disputa hegemonia com a Índia, hospedeira de capitais norte-americanos e ingleses em sua maioria. Daí a importância dada por Rússia e China à manutenção de Assad no poder na Síria, onde a eventual deposição de Assad significaria o fechamento de todo o anel do Oriente Médio (de Marrocos à Turquia) pelas potências imperialistas tradicionais. Acrescente-se o detalhe de que a única base militar, naval, que a Rússia possui na região encontra-se na Síria. Não será fácil ao senhor Barack Obama jogar por terra o regime sírio e seu presidente. Nos Estados Unidos já surgem as primeiras manifestações contrárias à intervenção direta, tanto por terra quanto por ar. Sempre é útil lembrar que a oposição de vários movimentos no interior dos próprios Estados Unidos foi um dos fatores decisivos da derrota do país na Guerra do Vietnam.

Que não se tente, pois, o caminho do chamamento dos imperialistas à razão. O leão é carnívoro, assim como é da essência do imperialismo a pilhagem, a guerra e a mentira. É o que demonstrou Lênin em seu texto “Imperialismo, fase superior do capitalismo”, de 1916, e a história tem comprovado de forma tão dramática quanto clara desde então. A lição fundamental é a de que só se derrota a ação imperialista se se derrotar seu agente: o capitalismo. É portanto a revolução socialista, como fase de transição ao comunismo, o caminho de superação da barbárie imperialista, da lógica do sangue.

Aos lutadores pela causa do proletariado de todo o mundo só resta hoje o posicionamento de incondicional solidariedade à Síria e ao seu governo. Não há meio termo. Qualquer ressalva ou senão neste apoio atual significará conivência com o imperialismo.

Abaixo a agressão à Síria!

Venceremos!


 

 




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