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Bolsonaro e a crise de governo

 

FOTO BOZO

Muito mais que expressarem a presença e a movimentação da chamada ‘base social’ do bolsonarismo, as manifestações e atos públicos realizados pela extrema-direita no dia 26 de maio também mostraram o quanto o atual governo continua produzindo crises com capacidade de minar sua própria base de sustentação no interior do campo político burguês. Crises que, em essência, são o resultado do confronto entre as bases ideológicas de apoio a Bolsonaro — com suas propostas ultrarreacionárias, inclusive no campo dos costumes e da moral — e amplas bases políticas de direita cada vez mais em desacordo com Bolsonaro pelo fato de este não estar conseguindo implementar as reformas capitalistas exigidas pela burguesia.

O apoio, mesmo que velado, de Bolsonaro às manifestações de 26 de maio contribuiu assim para aprofundar a já existente crise de governo e o crescente mal-estar nas relações do Executivo com Legislativo e Judiciário. As maiores provas foram as críticas de ministros do STF às manifestações e a grande irritação que essas mesmas manifestações causaram junto aos deputados do chamado ‘Centrão’ — grupo fisiológico composto por parlamentares de direita que, tradicionalmente, organizam o ‘balcão de negócios’ no Congresso Nacional, em troca da aprovação de projetos governamentais.

Cumpre lembrar que o impasse e o aprofundamento da crise de governo já estavam dados para Bolsonaro independentemente do resultado das manifestações, fossem elas (ou não) massivas, uma vez que tais manifestações foram convocadas sem a chamada ‘mediação’ das instituições políticas burguesas, como partidos e parlamento.

Seja como for, o que importa para a burguesia é uma certa tranquilidade institucional para governar e implementar seu projeto de ajuste que joga a conta da crise nas costas do proletariado. Tranquilidade institucional que Bolsonaro está sendo incapaz de produzir.

O que importa para a burguesia é um governo com efetiva capacidade de gerar coesionamento entre suas diversas frações de classe, com vistas a aprovar e implementar a reforma da previdência e o programa de privatizações em tramitação no Congresso Nacional.

Do ponto de vista estritamente burguês, o caráter tosco e anacrônico do governo Bolsonaro — com suas vãs tentativas de fazer a roda da história recuar em no mínimo 70 anos — está se transformando no maior obstáculo para a própria governabilidade burguesa, sobretudo porque, na atual conjuntura, não há ainda necessidade de uma ditadura burguesa aberta como método de governança. Bolsonaro está se mostrando, pois, incapaz de gerir os negócios da burguesia e esta é a origem das críticas cada vez mais intensas que vem recebendo da direita, o que se torna ainda mais grave com o aprofundamento da crise econômica capitalista e seu efetivo potencial de redinamizar as lutas de classes. Para implementar suas reformas, a burguesia tem pressa, e essa pressa aumenta na medida em que também aumentam as mobilizações de trabalhadores contra essas reformas.

Por isso que, numa perspectiva de médio prazo, setores burgueses, com apoio de parte da mídia empresarial, já projetam a construção do nome do vice Hamilton Mourão como ‘alternativa’ a Bolsonaro, o que se daria num governo que já conta com presença superior a 100 militares no primeiro escalão.

Enquanto toda essa crise se desenrola, é lamentável constatar a brutal incapacidade da esquerda brasileira de analisar e compreender minimamente o que se passa na atual conjuntura, dada sua escravização ao ideário burguês e seu caráter cada vez mais reformista e eleitoreiro. Não é à toa que setores dessa mesma ‘esquerda’ vêm propondo a lamentável e equivocada palavra de ordem ‘Fora Bolsonaro’, como se a luta para tirar Bolsonaro do Planalto fosse a prioridade da classe trabalhadora.

A nós, comunistas, cabe participar efetivamente das lutas proletárias contra os ajustes capitalistas implementados por quaisquer governos burgueses, sem ilusões eleitoreiras e apostando na criação de uma grande frente sindical para barrar a reforma da previdência, as privatizações e os cortes de direitos.

Venceremos!

  

 


 

 




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