Logo

Democracia ou socialismo?

 

bolsonaro-1-8-600x338

A eleição do capitão Jair Bolsonaro, que mesmo antes de tomar posse já deixa claro seu projeto de instalar um regime fascista ou uma ditadura militar no país, coloca mais uma vez em pauta o tema democracia x ditadura(s). Isto, do ponto de vista objetivo, já que subjetivamente a questão não está na agenda política do país. Pela direita, ou seja, para a burguesia e seus aliados na pequena-burguesia, trata-se de um tema sem significação própria, já que o que importa mesmo é a geração de mais e mais grandes lucros para os primeiros e mais e mais migalhas para os segundos, independente do regime desde que garantida a propriedade privada dos meios de produção – fábricas, fazendas, bancos, grande comércio, serviços. Para a esquerda, sim, se trata de uma questão decisiva. Desgraçadamente, contudo, a maioria, a grande maioria da esquerda, desde há muito perdeu o hábito do pensar crítico, e já se joga de corpo e alma no lamaçal da democracia como linha estratégica de enfrentamento ao governo Bolsonaro. O Movimento Marxista 5 de Maio-MM5, ainda um corpo minoritário no campo da esquerda brasileira, vem na contramão desta jornada em direção a este apodrecido pântano burguês chamado democracia e convoca aqui a militância de esquerda do país a um debate sério sobre a questão: democracia ou socialismo?

 

Evidentemente não temos esperanças de podermos sensibilizar uma maioria significativa desta esquerda. Materialistas que somos, bem sabemos que a ideologia democrática é tomada pelos segmentos majoritários da esquerda como fenômeno natural – algo como o dia e a noite, a chuva e o sol. A ideologia, inclusive e principalmente a ideologia política das classes dominantes, penetrou tão profundamente por seus poros que, se alguém ousar se dizer antidemocrata, corre risco sério de, no mínimo, ser escorraçado do ambiente. E excomungado para todo o sempre. Tal reificação da democracia como a mais perfeita e sublime forma da organização do estado, independentemente da classe no poder, constitui seguramente a maior vitória da burguesia no terreno ideológico desde que o capitalismo é capitalismo. Uma naturalização que penetrou igualmente fundo na classe trabalhadora. O conhecido cientista político brasileiro Carlos Nelson Coutinho, já falecido, subiu ao cume do Pico da Bandeira em 1979 e de lá bradou aos quatro cantos do mundo: “A democracia é um valor universal!” E os quatro cantos do mundo ouviram e se curvaram. Carlos Nelson, no entanto, antes de morrer iniciou uma autocrítica daquele seu canto de guerra, o que de nada adiantou: os quatro cantos do mundo permaneceram e permanecem curvados à democracia. O Brasil junto, ajoelhado.


As primeiras teorizações mais sistemáticas em todo este processo permanente de erguimento da democracia ao altar da perfeição ocorreram na Europa da primeira metade do século XX, principalmente na Alemanha através do trabalho de Eduard Bernstein e Karl Kautsky. Empiricamente, enquanto prática política e de trabalhos sem pretensão científica, desde o século anterior a ‘solução democrática’ já vinha sendo tomada como caminho natural da humanidade pelos movimentos socialistas nascentes. O alvo central, preferencial e explícito dos tiros disparados por Bernstein e Kautsky no debulhar de seus rosários democráticos se encontrava – e se encontra – em todo o trabalho político-científico de Karl Heinrich Marx. Através de um longo e profundo trabalho de pesquisa da lógica do nascimento e existência cotidiana do capitalismo, assim como das leis que regem a transformações das sociedades, Marx demonstrou de forma rigorosa e cientificamente incontestável e incontestada que a democracia é uma forma própria de organização da sociedade capitalista, da sociedade burguesa.

 

E atenção: Marx demonstrou, também de forma rigorosamente científica, que a democracia não é – repetimos: não é – o caminho para o socialismo. Marx demonstrou que o caminho para o socialismo é a revolução proletária, a conquista do poder direto pelos trabalhadores diretos.

 

Para além, contudo, do rigor científico do marxismo, está aí o testemunho vivo da história para quem quiser ver: todas as previsões de Marx a partir de sua teoria foram confirmadas pelos fatos históricos, tanto no campo econômico quanto na área política, inclusive quanto à imprestabilidade de a democracia servir de caminho para o socialismo em presença de fascismos e de ditaduras burguesas.

 

Em Marx, o caminho para o socialismo é o socialismo. A revolução socialista. E para fazer a revolução socialista devem-se acumular forças socialistas, não forças democráticas. Forças democráticas sempre resultam em estados e governos burgueses. Consultem as obras de Marx – fica o desafio a reformistas e democratas. E por mais que a história desminta o “valor” da democracia, sempre brotam e hão de brotar da pequena burguesia os intelectuais que insistem em desafiá-la, contestá-la. Alguns mais toscos e primários, outros mais sofisticados, como o italiano Antonio Gramsci, mas todos obrando louvores à democracia como meio e fim.

 

Então, e por tudo isso, os marxistas não podemos propor outra linha estratégica frente ao governo Bolsonaro que não a linha estratégica socialista, não democrática. Falamos em linha estratégica exatamente porque não dispomos os marxistas de um exército que nos capacite a colocar em prática a única estratégia de fato revolucionária: uma insurreição proletária de tomada do poder. Falando mais claramente: nem nós, a vanguarda marxista existente no país, nem o próprio proletariado, temos força política para um assalto concreto ao poder burguês. Esse tipo de voluntarismo custou à esquerda mais que preciosas vidas de valorosos revolucionários no período da ditadura 1964-85. A linha estratégica portanto é a de acumular forças, mas não forças democráticas, claro. Falamos do acúmulo de forças proletárias necessariamente a ser obtido a partir de lutas e confrontos próprios do proletariado em defesa de reivindicações próprias, direitos próprios e formas de luta próprias. Nada de empenharmos esforços em propostas de defesa do famigerado ‘estado democrático de direito’. Nada de reivindicar ‘liberdades democráticas’. O que se trata é de acumular forças proletárias. Nada temos a perder. O proletariado conta com um decisivo e imbatível aliado histórico: a própria lógica de existência e reprodutibilidade do capitalismo, que conduz o sistema de tempos em tempos a profundas críticas que afetam sua capacidade de produzir lucros e, consequentemente, sua capacidade de garantir sua dominação política e ideológica. Não uma “crise final”, como deliram os trotskistas, mas crises cíclicas. E é no ponto agudo de uma dessas crises inescapáveis do capitalismo que emerge o tempo da revolução proletária, da insurreição, da tomada do poder pelo proletariado. O que só será possível se existirem forças proletárias – não democráticas, portanto – já acumuladas ou acumuladas no próprio processo de aguçamento da crise.

 

Ou será que estamos errados? Recorramos à história. Durante a ditadura militar, a esquerda, em sua grande maioria, vestiu a bandeira da “luta contra a ditadura” na linha estratégica da busca da democracia. Resultado: veio a democracia, veio Sarney, veio Collor, Fernando Henrique, veio um PT já degenerado, veio Temer. E chega Jair Messias Bolsonaro pilotando um caminhão de 50 milhões de votos na iluminada estrada de democracia. Sim, Bolsonaro foi eleito pela democracia e suas instituições, inclusive uma mais que degenerada mídia livre. Um legítimo filho da democracia. Só para não esquecer: Mussolini e Hitler foram também legítima e democraticamente eleitos.

 

Será que desta vez a esquerda vai aprender? É de se duvidar. No máximo, algumas de suas organizações vão escolher o velho caminho da dubiedade através de propostas do tipo “democracia operária”, “democracia popular”, “verdadeira democracia” e mesmo a mais recente gambiarra “poder popular”. Atenção, pois.

 

Venceremos!


 

 




© Copyright 2011 - 2012 www.mmarxista5.org