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Esquerda: misticismo e pornografia

 

Em 1920, ao fazer um balanço dos antecedentes históricos da Revolução Russa em seu texto Esquerdismo, Lênin se referiu aos anos de reação transcorridos em seu país de 1907 a 1910, após a derrota da revolução burguesa de 1905, como tempos de misticismo e pornografia.

Ao fazermos no futuro um balanço semelhante dos tempos atuais no Brasil teremos que ser ainda mais diretos, rigorosos e críticos. Quanto à classe trabalhadora como um todo, talvez nem tanto, já que sua condição de vítima de todo um desenrolar histórico lança no campo da objetividade as observações que tenhamos que fazer a seu respeito. Quanto à esquerda, contudo, não poderemos aliviar na condenação ao verdadeiro festival de misticismo e pornografia política que encena desde há muito no país. Partamos de 1964. O PCB, então amplamente dominante no seio da esquerda, não se envergonhou de assumir um papel de agente de uma absurda revolução democrático-burguesa, através da via institucional, claro, hipoteticamente a serviço simultâneo dos trabalhadores e dos burgueses, que o partido delirava compartilharem os mesmos interesses históricos e políticos. Deu no que deu.


Durante a ditadura 1964-1985 a esquerda se dividiu em dois principais segmentos político-ideológicos, ambos presos a duas vertentes políticas da ideologia pequeno-burguesa igualmente estranhas e antagônicas aos interesses do proletariado: o vanguardismo, no caso da esquerda armada, e o velho reformismo ainda capitaneado pelo PCB. Em que pese a seriedade da militância destas duas vertentes, o resultado foi um só: derrota. Lateralmente, uma linha minoritária marxista igualmente derrotada.


A redemocratização, como sabemos, foi aquele carnaval democrático que levou a prazeres indescritíveis a burguesia nacional e internacional e também os generais da ditadura. Socialismo, nem pensar. Revolução? O que é isso? O que ocorreu foi que a esquerda navegou nos mares podres e lamacentos da democracia e da conciliação de classes. E deu no que podia dar: o porto da institucionalização e legitimação de um estado burguês na Constituição de 1988, muito propriamente denominada de ‘Constituição Cidadã’. Cidadão, sim; proletariado, jamais – exultava a esquerda, agora bem agasalhada em um partido que na realidade jamais pretendera ser um partido de trabalhadores, mas “do povo”, “contra as elites” e expressões semelhantes sempre úteis para abrigar interesses e objetivos dos de cima. De trabalhadores, só o nome e, desgraçadamente, a composição demográfica.


No poder, o PT caminhou por onde secularmente caminham os partidos social democratas: a senda da degeneração política e organizatória. O que era social democracia transmutou-se em social liberalismo. A opção pela institucionalidade legal apagou qualquer resto das brasas de combatividade que houvessem resistido debaixo das cinzas da acomodação. A ponto de a burguesia chegar à conclusão, ano passado, de que o partido não mais servia aos seus interesses. Obrigado, senhores, mas seu tempo acabou. Apeado do poder, o PT volta às ruas, retomando a linha social democrata pressionado pelo medo de perder suas bases eleitorais entre o proletariado. Vamos ver no que vai dar. Tudo vai depender do desenvolvimento das lutas de classes a partir de agora.


A resposta que não é


Desmoralizado e esvaziado política e ideologicamente o reformismo tradicional nas águas turvas da redemocratização, a pequena burguesia não perdeu tempo, descobrindo caminhos favoráveis ao seu imediatismo e idealismo inscritos indelevelmente em seu código genético. E despontam no horizonte duas divisões da cavalaria salvadora de uma pequena burguesia já em desespero: o trotskismo e o gramscianismo. À frente, as bestas apocalípticas do messianismo, do oportunismo, do imediatismo e do voluntarismo, sempre alinhadas em formação de seta em busca do esmagamento do marxismo, da presença do marxismo nas lutas do proletariado.


Por que o proletariado se mantém praticamente alheio à sua própria miserabilização material e espiritual hoje? Sim, os aparatos repressivo e ideológico da burguesia e da pequena burguesia são os determinantes. Mas por que não assistimos a um número maior de atos de rebeldia classista – classista, repetimos – deste proletariado na proporção em que este proletariado é oprimido? De quem é a responsabilidade? Isso mesmo: a responsabilidade é desta esquerda, que vai ao proletariado ou em busca de votos ou, então, prometendo uma revolução imaginária para daqui a pouco, espalhando ilusões somente mantidas pelas volumosas doses de falsas esperanças messiânicas despejadas por trotskistas e afins.


Revolução? Somente se nós a dirigirmos, bradam os trotskistas de peito inflado e voz retumbante. Todos os outros são traidores. Transformação social? Só nós temos condições de dirigi-la – os demais são infantis, esquerdistas, irresponsáveis, blanquistas, sussurram educadamente os gramscianos, os reformistas do nosso tempo, os neorrefosmistas. Não é preciso ir longe no tempo para comprovar, sem a mínima possibilidade de contestação, estas verdades. Vejamos a Venezuela, país onde o proletariado alcançou o mais alto nível de consciência no mundo atual, país onde a contradição burguesia x proletariado alcançou o maior nível de aguçamento. País para onde o imperialismo, acuado, volta suas garras organizando abertamente um golpe de estado para derrubar o governo Maduro, que, inclusive com a atual Assembleia Nacional Constituinte, instala no país uma conjuntura revolucionária que só pode resultar em socialismo ou barbárie.


O que pensam e fazem trotskistas e gramscianos em relação ao atual e grave quadro conjuntural venezuelano?


Trotsquistas: o bolivarianismo é uma forma de bonapartismo, de fascismo. Temos que combatê-lo. Temos que nos alinhar a todas as forças do país para combater Maduro, inclusive com a direita abertamente fascista, mas disfarçando que somos os verdadeiros chavistas para não nos desmoralizarmos junto às massas. Mas tenhamos consciência de que somos os únicos que podem liderar a revolução na Venezuela e em qualquer lugar do mundo, em qualquer fase de qualquer processo. O que falta para uma revolução triunfar em todos os lugares é uma direção revolucionária. E nós somos esta direção.


Gramscianos: Não, companheiros, não podemos declarar um apoio sólido e aberto ao bolivarianismo e ao presidente Maduro. Afinal de contas, por favor, levem em conta que a Constituinte que ele convocou não é democrática, não foi precedida nem convalidada por uma consulta popular, um referendo. Vejam por favor, esta Constituinte não foi eleita pelo voto universal, exigência de toda democracia que se pretenda verdadeiramente uma democracia.


E nós, os marxistas, o que temos que dizer sobre o bolivarianismo e o governo Maduro? Temos o que dizer e fazer. Nossa agitação e nossa propaganda partem do princípio de que a Venezuela representa um ponto de ancoragem da revolução mundial hoje, sim, mundial, já que, como afirmamos acima, é nesse país que o proletariado – vejamos bem, o proletariado, e não qualquer categoria diluidora como “povo”, “cidadão”, “população” etc. com que conciliadores e traidores buscam ocultar e secundarizar os interesses dos de baixo. O bolivarianismo foi – e continua sendo – o fator desencadeante e radicalizador do aguçamento das lutas na Venezuela. E seguramente sua radicalização revolucionária aguçará as lutas em toda América Latina e, pode-se esperar, no mundo. Questionar se é o PSUV ou quem quer que seja que vai liderar esta radicalização é, no mínimo especulativo e contemplativo no momento. É preciso criar um partido leninista revolucionário na Venezuela? Sim, claro. Pode este partido contar com segmentos decisivos do PSUV? Óbvio. Atuemos no sentido de radicalizar o bolivarianismo – e não de destruí-lo como querem trotskistas e gramscianos – que certamente chegaremos a bom porto.


Temos, então, os marxistas de cada país que organizar comitês de apoio à Revolução Bolivariana e ir às ruas denunciar ofensiva capitalista, imperialista, contra esta revolução. E, se preciso, empunhar armas em defesa da libertação do proletariado venezuelano.


Viva o bolivarianismo! Viva Maduro! Viva a Constituinte Proletária!


 

 




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