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Por um poder proletário!

Com o agravamento da crise econômica no Brasil os representantes de diferentes facções políticas da burguesia travam uma disputa pelo comando político direto do país. A bandeira do impeachment guia tanto a oposição de extrema direita quanto, em sentido contrário, o próprio governo, que por sua vez segue seu caminho cada vez mais à direita, com medidas contra os trabalhadores. Como sempre, a parte cada vez maior daquilo que é produzido segue para os donos do capital financeiro.


Resta ao PT calcular com precisão o quanto pode entregar de seu capital político para se manter no poder, equilibrando um discurso de proteção "para o povo" com medidas que atacam os direitos trabalhistas e as chamadas políticas sociais. Contra o PT e seus aliados, os partidos da extrema direita se alinham a grupos fascistas na esperança de se diferenciarem politicamente e assumem uma agenda radical e abertamente neoliberal, uma vez que seus compromissos originais com o neoliberalismo já foram adotados por Lula e continuam implementados por Dilma.


Embora aparentemente a corrupção seja a chave mestra do desgaste petista, essa não é a verdade. Mesmo rodeados de diversos escândalos divulgados pela grande mídia FHC, Lula e Dilma conseguiram ser reeleitos. O fator determinante, de fundo, para movimentos de dimensão da deposição de um presidente é sempre predominantemente econômico. Todos os grandes partidos brasileiros, em especial PT, PSDB e PMDB, sempre receberam grandes somas das mesmas empresas, em esquemas idênticos de doações financeiras – lícitas e ilícitas. É importante destacar que embora estes partidos tenham se beneficiado deste dinheiro para construir suas campanhas eleitorais e para enriquecer seus integrantes, os esquemas de corrupção geraram uma riqueza muito maior para as empresas envolvidas e para seus acionistas internacionais e nacionais.


Como marxistas temos a clareza de que o estado burguês é um agente dos interesses da burguesia, fundamental para manter o equilíbrio social em que se sustenta o capitalismo. As disputas partidárias no interior do capitalismo nada mais são que disputas de segmentos econômicos e/ou políticos de agentes do capital fantasiadas de propostas “para o país”. Ou seria por acaso que um completo idiota como George W. Bush chegou à presidência da maior potência econômica do planeta, senão para fazer girar a economia com mais uma rodada de empreitadas bélicas? Cumprida a tarefa por Bush, cujos resultaram incluíram também a eclosão da bolha especulativa de 2008, o capital financeiro saiu em busca de um rosto mais moderno para suas novas medidas, encontrando em Obama a imagem que procuravam.


Lula, o esperto

Para o capital, Fernando Henrique Cardoso e seu partido já não serviam mais para retirar direitos trabalhistas e vender as empresas públicas, já que ele enfrentava forte resistência popular, não tinha nenhuma influência junto aos sindicatos e movimentos sociais, não tinha empatia social e era incapaz de se tornar um modelo para os demais países de terceiro mundo, que já passavam a ser chamados de países em desenvolvimento, uma forma mais atraente de se tratar as nações em que trabalhadores são superexplorados em benefício das grande capital nacional e internacional, deixando a ilusão de que seguindo as regras do jogo um dia se tornariam países desenvolvidos. Ou não foi como um exemplo a ser seguido que o FMI tratou Lula? O ex-presidente petista também foi "o cara" para Obama e, ainda, ganhou um prêmio das mãos do fascista polonês Lech Walesa, comparsa do agente imperialista João Paulo II.


A força de Dilma e do PT ainda reside justamente em sua capacidade de acelerar a implementação de políticas contra os trabalhadores, assim como se deu com o Syriza na Grécia. As manifestações de apoio a Dilma no dia 20 de agosto passado mostram que o PT ainda tem a capacidade de implementar medidas neoliberais sem grandes greves, revoltas e protestos. O rebaixamento do grau especulativo do Brasil foi um golpe de chicote para que o PT siga seu caminho com maior rapidez. Como um cavalo que pode morrer por esgotamento, o PT tenta dosar um vigor que o permita continuar vivo com a subserviência para agradar seu amo. O açoite desferido pela Standard & Poor's serviu para mostrar o fio ao qual o PT se prende.


Com a esperteza típica dos oportunistas, Lula se prontificou a criticar as medidas exigidas para que a avaliação do país melhorasse, entre elas os cortes de gastos, o desemprego e a redução para a verba na educação, sabendo que Dilma se prepara justamente para atender estas exigências. Entretanto o mesmo Lula é o principal articulador e incentivador para que estas medidas sejam tomadas, foi ele quem indicou o ministro-banqueiro Joaquim Levy, sabendo de suas qualidades de fiel escudeiro dos interesses do mercado financeiro. Suas reuniões com o PMDB servem justamente para dar a garantia de que o governo federal segue no rumo esperado. Sua declaração serve justamente para manter seu lastro eleitoral, reforçando sua figura de homem comprometido com os "interesses do povo". Lula trabalha o desgaste da imagem de Dilma para preservar a sua, pois sabe que esta é única chance do PT continuar no poder no longo prazo.


Crise econômica se aprofunda

Economicamente o Brasil esgotou suas reservas para resistir aos efeitos da crise internacional, já não existe mais espaço para se recorrer ao consumismo desenfreado para aquecer a economia. A China, principal parceiro econômico do país, enfrenta uma redução de seu crescimento econômico e também se organizou para reduzir a compra das matérias primas que pode produzir e forçou ainda mais para baixo os preços das compras feitas no Brasil ao buscar novos parceiros. A desindustrialização cobra seu preço justamente durante os períodos de crise, quando a queda da moeda reduz a compra de produtos importados. Com uma economia extremamente dependente dos serviços os efeitos da falta de emprego ocorrem em cascata, ampliando sua área a cada degrau descido. Pela primeira vez desde 1996 o governo terá um déficit primário em suas contas, a previsão é que em 2016 o déficit seja de R$ 30,5 bilhões. Não existe qualquer previsão positiva para economia brasileira até 2018. A crise internacional segue se aprofundando, a situação dos refugiados é uma das faces desta crise e mostra seu poder de destruição, embora omita a acumulação de riquezas pelo grande capital.


As crises econômicas, como bem analisou Marx, constituem espaços de intensificação das lutas de classe, mesmo que na ausência de uma consciência política revolucionária no seio do proletariado acabam por se superar para uma nova rodada de crescimento do capital. Atualmente a maior parte da esquerda sofre os efeitos por ter abandoando o marxismo e adotado o reformismo e/ ou o trotsquismo, vendo-se assim perdida e frágil diante da atual crise cíclica capitalista. Sem um norte revolucionário a crise toma a forma de um horizonte cinzento e sem perspectivas. Os lampejos de uma militância frágil e "contemporânea" acabam por levar jovens à desilusão e ao conformismo. Ao abrir mão do marxismo a esquerda se viu incapacitada de reconhecer o terreno em que se move, de saber seu tamanho e sua importância. Suas fragilidades foram transformadas em “virtudes”, uma situação que era até confortável durante o período de estabilidade político-econômica à crise, mas agora mostram sobre que tipo de alicerce corroído foram erguidas.


A esquerda pode de fato se unificar sem ter forças sequer para resistir aos menores esforços do patronato? Mais importante, a esquerda vai seguir dando como resposta aos trabalhadores, não o caminho da luta revolucionária, mas o convite para esforços democráticos em busca de espaço na institucionalidade burguesa, como tão claramente defendem trotsquistas e gramscianos? A esquerda tem que aprender com seus erros e o grande erro cometido foi abandonar o marxismo e a luta pela formação de uma consciência independente, antiburguesa e revolucionária no seio do proletariado.


A unificação dos trabalhadores não será erguida com chamados estranhos à realidade em que vive o proletariado. Temos que saber qual o efeito de anos de neoliberalismo e consumismo sobre a classe trabalhadora, para daí articular nossa propaganda. Acreditar que em um passe de mágica o proletariado irá tomar consciência de sua situação, apenas vendo bandeiras desfilando nas ruas com palavras de ordem que até minutos atrás sequer sabia o que era, é de um infantilismo típico dos anarquistas. Nosso desafio é muito maior. É preciso atuar nesta crise na linha da criação bases políticas e organizatórias, livres de entulhos reformistas, conciliadores e vanguardeiros, que possam constituir-se em ponto de partida da luta direta por um poder proletário.


E o nosso caminho é a luta. À luta, portanto.
Venceremos!

 


 

 




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