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O fantasma do socialismo ronda a América Latina

1. A profunda crise econômica de reprodutibilidade por que passa o capitalismo em nível mundial não dá sinais de recuperação. Pelo contrário, o que se vê são sinais de aprofundamento da crise nos países europeus, agora com diminuição da atividade econômica geral chegando aos países considerados de centro, como Itália e França. A própria Alemanha fechou 2012 com um crescimento de apenas em torno de 1%, contra os cerca de 5% do balanço de 2011. Note-se que se vive um segundo momento da crise, no qual a capacidade de refinanciamento do setor privado (incluído aí o segmento bancário) pelo estado capitalista já se encontra praticamente esgotado, inclusive nos Estados Unidos.


2. Neste quadro, devem permanecer no médio prazo as iniciativas de intervenção político-militar direta do imperialismo nos países produtores de matéria-primas e insumos básicos. É no interior desta consideração que deve ser entendida a chamada “Primavera Árabe” – que, é necessário frisar, nenhum benefício político, ideológico, econômico ou organizatório trouxe ao proletariado de seus países – como resultante de uma ação imperialista nos campos ideológico, político, diplomático e militar na linha da implantação de governos aliados e/ou mais estáveis, capazes pois de lhe garantir tais insumos a preços compatíveis com a progressiva queda do poder de compra das principais economias imperialistas em crise.


3. No Oriente Médio, portanto, a tendência é a da implantação de governos de base político-ideológica islâmica moderada, de modo a não tumultuar os negócios imperialistas. É neste quadro que se pode pensar na criação de um estado palestino laico, não teocrático, no médio prazo (três a cinco anos, digamos). Deve-se lembrar que as chamadas monarquias árabes (Arábia Saudita, Kwait, Omã, Iêmen, Qatar, Bahrein etc.), montadas em oceanos de petróleo, têm na religião islâmica seu principal esteio ideológico, politicamente legitimador, junto a um proletariado brutalmente explorado e oprimido. Já são visíveis os repetidos e progressivos atritos do governo democrata-imperialista de Barak Obama com o mandatário fascista israelense Binyamin Netaniahu, que apoiou o extremista de direita espumante Mitt Romney nas eleições americanas passadas.


4. O desfecho da crise da Síria parece se encaminhar ou para uma derrota aberta do regime de Bachar Assad, ou para uma reorganização do poder no país na linha de uma acomodação das forças ao gosto do imperialismo. Não se descarta, é claro, a possibilidade de uma vitória militar e politica de Assad, mas não é esta a maior possibilidade.


5. Portanto, encontra-se no Irã dos aiatolás a única, porém potente, resistência ao imperialismo “ocidental” (Europa e Estados Unidos). O fato é que o próprio Irã, para além de iguais gigantescas reservas de petróleo, possui uma economia diversificada, com uma moderna infra-estrutura e um sistema geral de serviços ao nível do chamado mundo desenvolvido, fato que lhe possibilita aspirar a uma supremacia político-econômica no Oriente Médio. De todo modo, no longo prazo pode-se prever que a permanência de um regime independente do imperialismo e hostil ao mesmo no Irã vai depender da capacidade deste país fabricar sua bomba atômica – quadro em que se desenharia um novo cenário estratégico para o Oriente Médio.


6. Na América Latina o traço político mais significativo da conjuntura é a resistência-persistência do bolivarianismo na Venezuela, Equador e Bolívía. Destacando-se também, é claro, a sobrevivência de Cuba Socialista. Por bolivarianismo podemos entender no geral uma linha radicalizada e em progressiva radicalização das linhas gerais do modelo socialdemocrata. Em radicalização, pela singular razão de que os países subdesenvolvidos, como os da AL, não possuem as condições estruturais econômicas e políticas para suportarem modelos socialdemocratas de forma estável, já que, como sabemos, uma socialdemocracia se sustenta internamente em determinado país na razão direta do exercício da ação imperialista deste país sobre o proletariado de outros países. Esta é uma lei do sistema capitalista mundial, devidamente identificada por Engels há mais de um século e meio.


7. E no campo do bolivarianismo latino-americano destaca-se qualitativamente a Venezuela como polo mais avançado. Mesmo não sendo o caso de aprofundar aqui uma análise mais detalhada da economia e do estado venezuelanos, sua história e suas instituições civis e militares, é preciso ressaltar que as forças produtivas (referimo-nos obviamente à imensa riqueza energética representada pelas gigantescas reservas de petróleo do país) estruturaram relações de produção e desenvolvimento histórico das lutas de classes no país bastante peculiares. Não é novidade, sabemos, a existência de modelos “bolivarianos” na América Latina até mesmo no século XIX, com destaque para a experiência paraguaia, onde o proletariado foi literalmente dizimado pelos estados caudilhescos de Uruguai e Argentina em aliança com os parasitas do Império brasileiro, no que passou à história literalmente como genocídio, com o assassinato de mais de 80% da população adulta. No século XX, tivemos entre outros os governos do general Velásquez Alvarado no Peru e o de Juan Torres na Bolívia, respectivamente ao final dos anos 60 e início da década de 70. O fato, contudo, é que todos estes governos e regimes não tinham força econômica suficiente para sustentar seu projeto.


Mas a Venezuela de Hugo Chávez Frías possui esta força. E, agora, no interior de uma larga conjuntura de crise do capitalismo em que seus estados perdem parte de seu poder de intervenção. É preciso, sempre, levar em conta a concreticidade da realidade para que se possam operar análises igualmente concretas. Neste quadro, é a Venezuela bolivariana o polo principal, e fundamental, hoje do processo de radicalização das lutas de classes no continente latino-americano. Pode-se afirmar que, com a vitória do chavismo nas eleições presidenciais e regionais do final do ano passado, a Venezuela passou de um estágio de situação pré-revolucionária para o de uma situação revolucionária, já que: a) à burguesia-imperialismo se demonstraram esgotados os caminhos legais-institucionais de retomada das rédeas do estado; b) dada a radicalização do proletariado, inclusive as mobilizações em torno da doença de Chávez, não é dada ao próprio movimento bolivariano a possibilidade do retrocesso. Aconteça o que venha a acontecer, a solução da crise virá pela força: ou um golpe da direita ou uma insurreição proletária.

Que se destaquem, ainda, as mais que significativas iniciativas de auto-organização militar e política do proletariado venezuelano. E se informe que Elías Jaua, tido como o mais à esquerda do movimento bolivariano, considerado o “marxista” entre as quatro maiores lideranças do país – o próprio Chávez, Nicolás Maduro e Diosdado Cabello os demais, com Chávez muitíssimo à frente enquanto líder absoluto em todas as instâncias institucionais e extra-institucionais – acaba de ser investido no cargo de vice-presidente político. Importantíssimo: Jaua anunciou que o próximo passo da ‘revolução bolivariana’ deve ser a instituição dos conselhos populares e operários como poder político no país.

8. No Brasil, o registro maior da conjuntura é o indiscutível sucesso obtido pela aliança PT-PCdoB na domesticação do movimento operário. Poucos atos de traição ao proletariado na história foram coroados de tamanho êxito. Na realidade, o imperialismo tem no Brasil de hoje sua reserva qualitativa de força contra o avanço do proletariado. A maioria, a imensa maioria, do movimento sindical está obedientemente a serviço (bem remunerado, destaque-se) da estratégia geral do governo Lula-Dilma de montar um sólido modelo subimperialista no Brasil, no qual já e por enquanto vão sobrando migalhas ao proletariado na forma de uma tacanha política assistencialista. Nas Forças Armadas, absolutamente intactas em seu ideário coesionador fascistóide ultra-conservador, prevalece o ódio não dissimulado – sempre ostensivo, aliás – a tudo que possa parecer minimamente ofensivo ao privilégio opressor e explorador do capitalismo. No Poder Legistativo, a já histórica, tragicômica e perpétua navegação sem rumo no lodaçal da corrupção, do oportunismo, do servilismo. As exceções? As exceções só servem para legitimar toda a farsa. É inacreditável que reformistas, socialdemocratas e os mágicos messiânicos (estes, que tudo pensam poder fazer através da sagacidade) não se tenham dado conta disso.


De passagem, é bom acrescentar que apenas os menos atentos não percebem que as iniciativas diplomáticas do governo Dilma-Lula em favor da Venezuela não passam de movimentos diversionistas no interior de uma estratégia de obteção de algum respaldo de parte da esquerda nacional e, mais importante, acúmulo de forças legitimadoras para futuras ações contra-revolucionárias no continente. Pergunta-se, por exemplo: se o governo brasileiro fosse realmente de esquerda como quer fazer crer (de fato, trata-se de um governo de direita), já não teria rompidorelações diplomáticas com Israel? E o que de fato, de concreto, tem sido feito para ajudar Cuba?

Que tenhamos claro, portanto: o governo brasileiro é um governo de direita, não de extrema-direita, mas inegavelmente de direita, como provam suas ações, programas e estratégias em níveis nacionais e internacionais. Quanto ao lúgubre ladrar dos cães raivosos da extrema-direita na mídia, não o subestimemos. É perceptível uma onda de recoesiosamento da extrema-direita no país, haja vista inclusive o posicionamento e o comportamento da quase totalidade dos membros do Supremo Tribunal Federal no julgamento do chamado mensalão. Reafirmamos aqui nossa opinião explicitada em texto anterior: o que houve no julgamento do STF foi uma vitória da extrema-direita sobre a direita. Não temos que nos alinhar a qualquer das facções em luta. De todo modo, insistimos em que cabe e caberá ao proletariado julgar os crimes políticos – sim, crimes políticos de traição ao proletariado – cometidos por José Dirceu, Genoíno, Lula e outros e outros. Os trapalhões fascistóides do STF não têm legitimidade política para operar tal julgamento.

9. Em síntese, podemos afirmar estar hoje na América Latina o polo mais avançado da revolução proletária em nível mundial. Cabe, então, tabalhar interna e externamente na linha da radicalização e aprofundamento do atual quadro das lutas de classes naquele país em direção à insurreição proletária e à instalação de um governo dos trabalhadores. Só de trabalhadores.


10. Nacionalmente, temos que nos preparar desde já – com uma forte denúncia e, principalmente, organização, propaganda e organização – para conter o apetite pantagruélico com que certamente o governo Dilma partirá para cima do proletariado na linha de um duro aprofundamento da exploração em busca de mais e mais recursos para seus patrões burgueses. Concretamente, precisamos barrar a reforma trabalhista proposta pelo governo que, sinteticamente, joga na lata do lixo todos os direitos conquistados historicamente no país pelo proletariado.


 

 




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