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Crise do capital se aprofunda

A queda dos primeiros-ministros da Grécia, da Itália e da Espanha no curto espaço de duas semanas poderia até não configurar uma sintoma de uma crise sistêmica do capitalismo não fosse o fato de os três casos compartilharem a mesma causa estrutural: a evidente perda da capacidade de o estado capitalista financiar a reprodutibilidade do sistema. Destaque-se que não estamos falando de razões episódicas. O ponto de partida de qualquer análise da situação crítica por que passa o capital em nível mundial é a identificação da natureza do estágio financeiro em que ingressou o capital há pouco mais de um século.


Quando Lênin define, em “Imperialismo, fase superior do capitalismo”, a atual etapa também como capitalismo de estado, está referindo-se a que, devido às suas próprias contradições internas – sendo a principal delas a tendência à queda da taxa de lucro –, o capital monopolista só pode se reproduzir com a ajuda essencial do estado, quer através de conquista de novos mercados de consumo ou de trabalho para a sua respectiva burguesia, quer como financiador direto da produção e da circulação de mercadorias. Na realidade, na ponta de início do processo de produção encontram-se fundamentalmente recursos tomados de empréstimo junto ao sistema financeiro, e não mais aquele dinheiro guardado dentro do colchão dos tempos do capitalismo liberal.

Concretamente, o sistema bancário – bancos, seguradoras, agências estatais – tem no endividamento do estado o elemento estruturador de todo o mecanismo de financiamento da produção-circulação, já que é através da emissão de títulos da dívida pública que o estado obtém os recursos para emprestar diretamente à burguesia à burguesia e, igualmente, para fornecer aos bancos (através dos juros que paga pelos títulos que emite) o capital que estes por sua vez emprestam aos segmentos burgueses diretamente ligados à produção e circulação de mercadorias.

O que Marx provou e comprovou cientificamente é que os juros são parte de um lucro obtido através da exploração da mais-valia produzida pelo trabalhador e deste expropriada legalmente pelos possuidores dos meios de produção. Isto, tanto na fase liberal quanto na fase imperialista-monopolista do capitalismo. O que há de específico no capitalismo monopolista (imperialismo, capitalismo de estado ou capitalismo financeiro são expressões sinônimas) é este papel decisivo desempemhado pelo estado no mecanismo geral de financiamento.

Pode-se, portanto, afirmar que o elemento tipificador da atual crise do capital é a perda da capacidade de financiamento do estado. Na Europa, os chamados países “periféricos” – Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda – já não têm mais como financiar seus déficits públicos estatais, já que não se beneficiaram da rapina perpetrada pelos líderes do sistema nos derrotados países do Leste Europeu. A unificação monetária instituída pela adoção do euro foi útil enquanto corredor de exportação da Alemanha e França, principalmente, para os próprios países europeus. Hoje, tal unificação é contraproducente, não apenas porque impede os países em crise de apelar para recursos de política monetária (emitir moeda ou, se for o caso, retirar moeda de circulação) dada a perda de autonomia econômica ditada pela própria unificação.

Os Estados Unidos, às voltas com um déficit de cerca de US$ 15 trilhões – o equivalente ao PIB país –, se defronta agora com dificuldades de articular um acordo entre as diversas facções burguesas representadas em suas casas legislativas no sentido de operar cortes orçamentários em busca da recuperação daquela capacidade de financiamento do sistema. Não será absurdo supor que Obama já teria caído se vigorasse nos Estados Unidos um sistema parlamentarista.

De todo modo, o caminho apontado pelos novos mandatários da Grécia, Espanha e Itália – Portugal já está nesta trilha – é o do aprofundamento da exploração sobre os trabalhadores através de cortes de direitos trabalhistas e previdenciários, como lhes determinaram de chicote em punho os chefões Alemanha e França. Na realidade, o capitalismo não tem outro caminho na tentativa de superar a crise atual. O que nos autoriza a prever um grande aguçamento dos confrontos abertos de classe, principalmente na Europa, mas também nos Estados Unidos, onde os sindicatos parecem acordar de um sono secular.

Com o ressurgimento das lutas diretas de classe, todos aqueles valores erguidos em torno da beatificação do mercado serão certamente levados chão: o consumismo, o individualismo, a alienação. Tudo que é sólido desmancha no ar.


 

 




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